18ª Festa do Marmelo no Quilombo Mesquita
Sucesso completo! O Quilombo Mesquita ficou cheio de visitantes para comemorar a 18ª Festa do Marmelo. O dia começou cedo com a 1ª Corrida Cross Country da Marmelada, missa e depois almoço e leilão. Não pode faltar a degustação do doce de marmelo artesanal do Quilombo Mesquita.

A cultura da Festa do Marmelo surgiu de um antigo costume da comunidade, que fazia festas e orações em casa após a colheita. Cada produtor celebrava dando graças ao criador e a padroeira pela produção do ano. A colheita garantia o sustento da comunidade com a produção da marmelada, daí a importância de dar as primícias da safra para a igreja. A Festa do Marmelo é um costume religioso.

A história do Quilombo Mesquita é entrelaçada com a produção do fruto, e com a fabricação do doce de marmelo artesanal. O plantio e a fabricação da marmelada são feitos desde as primeiras gerações que habitaram o local. A tradição foi passada de geração em geração até que a comunidade cresceu e foi necessária a construção de uma igreja maior. O templo serviria para comportar toda a comunidade e realizarem a festa juntos, e não em suas casas como faziam antigamente.

Para arrecadar fundos para a construção do templo católico, foi a criada a Festa do Marmelo pela Comissão de Construção da Capela de Nossa Senhora da Abadia do Quilombo Mesquita. Apesar de ser mais antiga, a igreja é uma das sete capelas da Paróquia Santo Antônio.

A atitude dos fiéis também tinha o objetivo de divulgar a cultura local e fortalecer os produtores de marmelo. Com o passar dos anos, foram acrescentados eventos que enriqueceram a festa e deram a ela grandes proporções. Dentre os eventos se fortaleceram o Leilão e o Almoço, que acontecem no salão da igreja após a missa, e a Corrida da Marmelada com percurso dentro do território quilombola.
Resistência
Durante a missa de agradecimento à colheita, o ápice da festa, o Pároco Frei Alexandre, que substituiu Frei Romilson depois do capítulo em 2019, declarou apoio à cultura local se comprometendo a fortalecer a comunidade. “Nenhuma data será mudada!”, disse durante a missa. “Essa comunidade precisa resgatar suas raízes e valorizar sua cultura”, afirmou o frei, dizendo precisar do apoio de todos e da frequência na missa para que a comunidade ande unida em seus propósitos.

A líder comunitária, turismóloga e presidente da CONAQ, Sandra Pereira Braga ficou satisfeita com o resultado da festa. “O padre ter chamado a reflexão na missa dizendo que um povo não vive sem passado e sua história foi muito importante para nós. Eu fiquei muito emocionada", conta. Em conversa durante a Folia de Reis, o Frei afirmou que estava encantado com a fé e a cultura do Mesquita. "É uma fé muito bonita. Eles dão significado a tudo. No gesto mais simples como beijar uma fita, nós vemos beleza", disse.

Visitantes de outros quilombos se fizeram presentes. Além de cobertura da imprensa regional e nacional como a Rede Globo e a TV Justiça. “A Festa do Marmelo é um momento que valoriza a identidade quilombola. É um momento de festa, mas também é um momento de reflexão. Essa valorização se deve às pessoas que estão aqui mostrando essa tradição e a relação entre a comunidade e o marmelo”, explicou a quilombola Selma Dealdina. Ela não pode sair na foto pois, estava em consagração religiosa.

O quilombola e estudante de Artes Visuais da UnB, Walisson Pereira Braga, fez um pronunciamento durante a missa para fortalecer a identidade dos pequenos produtores. Ele escreveu um texto em homenagem a cada produtor que cultiva a tradição em casa e colhe dos frutos da sabedoria passada de geração em geração.
Tem o que comemorar?
Sim, o quilombo tem muito o que comemorar com o sucesso da festa e a alegria de permanecer, mesmo com as dificuldades, ainda ter com o que contribuir. Derramando seus ensinamentos e sua cultura para toda a sociedade desfrutar de sua beleza. O resultado é a casa cheia.

Leilão
Seu Edízio José de Moraes Aguiar, 73, é leiloeiro há quase 30 anos. Ele faz questão de enfatizar que só grita leilão na igreja. "Eu vou gritar o leilão nas festas da igreja pra agradecer o que Deus já fez. Enquanto eu tiver vida e saúde, não vou cobrar um centavo. Até a prenda que arremato, faço questão de pagar. Faço isso por amor", disse emocionado.

Seu Edizío é de Luziânia e todos os anos participa como voluntário na Festa do Marmelo. Ele afirma que São Benedito era um santo negro, filho de escravos, que foi alforriado e tornou-se franciscano. Conhecido por sua imensa sabedoria, São Benedito era analfabeto, porém era procurado por teólogos para aprenderem com ele. "Eu amo muito esse povo do Mesquita. A fé que se encontra aqui não se acha em todo lugar", explicou em lágrimas.

Alex é leiloeiro da igreja e político nas horas vagas. Mas, durante as festas a política fica de fora. Quem participa é o cidadão. Católico devoto, ele é voluntário como os outros, e diga-se de passagem, um leiloeiro muito animado. Ele comemorou se aniversário com bolo e guaraná e a presença da família e amigos assim que o leilão terminou.

Mas, ele não foi o único aniversariante. Nos bastidores, com muita labuta, Manoel Neres completava mais um ano servindo ao quilombo com seu trabalho. Autor do livro "Quilombo Mesquita, Tradição e Resistência", Manoel adotou o Quilombo Mesquita e vive entre seus projetos na Universidade de Brasília e a comunidade.

Voluntários da Paróquia Santo Antônio participaram do serviço da Festa e da Corrida. A capela de Nossa Senhora da Abadia faz parte da Paróquia Santo Antônio e cada vez mais, os fiéis compreendem que são apenas um, ligados pela unidade da igreja a qual fazem parte. Os que não são católicos são ligados pela cultura. Apesar de alguns pontos existentes por causa da diversidade, todos concordam que essas tradições devem ser preservadas em sua essência e levadas para as próximas gerações.

Está evidente que o Quilombo é aberto e guarda princípios religiosos e tradições familiares. Todos que chegam são bem recebidos, o que falta, às vezes, ou quase sempre, é o respeito. Respeito pela identidade, respeito pela história, respeito pelos nativos da região, respeito pelos proprietários da cultura.

É interessante se apropriar de algo pronto que se construiu durante séculos, com suor, com trabalho, com fé e amor. A comunidade Mesquita só quer respeito e os que se achegam são sempre bem-vindos. O Quilombo Mesquita tem um ambiente maravilhoso e acolhedor e isso se deve aos que preservam, a duras penas, a tradição e a sabedoria ancestral para honrar a memória de seus pais.

A Cavalgada, o Baile e a Corrida do Marmelo são realizados pela prefeitura sem a participação da comunidade quilombola. Alguns eventos foram levados para Luziânia e realizados sem a presença da comunidade na Igreja do Rosário, que foi construída pelos próprios quilombolas. Mas, o quilombo resiste, e por esse motivo, existe. No ano que vem tem mais, desta vez, poderá ser realizada em janeiro, durante a colheita. É aguardar para ver quais modificações irão acontecer no Calendário Católico da cidade.

Veja as fotos na galeria e confira todos os detalhes da Festa.






















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