top of page

Rego das cabaças, o aqueduto que abasteceu Santa Luzia

12 de mar. de 2021
8 min de leitura

Construído por 2 mil escravos, o Rego das Cabaças é um indício histórico da memória do Quilombo Mesquita.


Para abastecer o garimpo de Santa Luzia, os negros que trabalhavam no arraial tiveram que cavar 42 km de pedra com apenas picaretas. Os fazendeiros que exploravam o ouro na região os obrigavam a cavar de forma precária e desumana. De abril de 1768 até até setembro de 1770 estes homens e mulheres negros e negras, trabalharam, adoeceram e morreram para que a água chegasse. Os historiadores contam o fato como algo cômico, por uma briga de egos entre fazendeiros que disputavam quem tinha mais poder de realização. Mas, a verdade é que isso não tem graça nenhuma. Seus descendentes estão hoje no Quilombo Mesquita e tentam reconstruir seu passado para poder visionar um futuro. Conheça a história do Rego das Cabaças.



Foto: Ed Alves/CB/D.A Press



Assista a reportagem feita pela TV Anhanguera.

O aqueduto pode ser avistado de longe, por meio do corte no Morro do Falcão, na Área Urbana de Luziânia.


Veja a reportagem do Correio Braziliense:


Conheça a obra feita por dois mil escravos para levar água a Luziânia

Cerca de 2 mil escravos construíram, no século XVIII, um canal para levar água de onde hoje é o Gama ao centro do então Arraial de Santa Luzia, atual Luziânia.


Uma preciosidade da engenharia colonial resiste ao tempo, à ocupação urbana desenfreada e ao descaso do poder público. Dos tempos do Arraial Santa Luzia, ainda há ruínas da obra feita por 2 mil escravos no século 18. São nove dos 42km de um canal feito para levar água de onde hoje é o Gama (DF) ao município goiano. Matas das encostas dos morros e serras da região do Entorno escondem os vestígios da construção bicentenária.

Os negros começaram a abrir o canal em 11 de abril de 1768. Eles contavam só com picaretas e pás e o auxílio de burros e carros de boi no transporte do material. A missão era desviar água de uma das cachoeiras do ribeirão Saia Velha, no lado brasiliense da atual divisa entre o Distrito Federal e Goiás. Mas, no lugar de terra, os operários encontraram pedra. Como não tinham escolha, trabalharam dia e noite, sob chicote.


Ao longo de todo o canal, os negros levantaram dois aterros para o nivelamento do terreno, um com 500m de altura e 3m de profundidade e outro de 1,5m de largura e 5m de altura. A cada quilômetro de canal, fizeram um declive de 1m. Com isso, as águas desviadas do Saia Velha ganhavam força para transpor alguns trechos de subida e circular os morros até chegarem ao destino, a mina de ouro do Cruzeiro.

O ponto final ficava na parte alta da então Santa Luzia. O núcleo arraial havia sido fundado em 13 de dezembro de 1746 por causa da descoberta de ouro (leia Memória). Sem água, a mineração era impraticável. Era preciso lavar o material coletado no córrego para fazer a apuração das pedras preciosas. Para aumentar suas fortunas, quatro fazendeiros, exploradores do garimpo, decidiram canalizar o Saia Velha.

Cabaças

O projeto criou polêmica e inveja entre os demais fazendeiros da região. Um deles, o major José Pereira Lisboa, falava para quem quisesse ouvir que “a água do Saia Velha poderia vir às minas do Cruzeiro, não em um rego ou canal, mas em cabaças”. Logo o comentário chegou aos ouvidos dos financiadores da obra, que tomaram nota e mandaram acelerar a construção, concluída em 11 de setembro de 1770.


Houve festa e confusão na inauguração do canal. “Quando menos se esperava, foi aberto o dique que tinha sido feito nas Terras Altas, e a água jorrou barulhenta pela Rua do Rosário abaixo”, contou o historiador goiano Gelmires Reis em um dos seus 28 livros sobre Luziânia. Com a água, rolaram cabaças, que produziram um ruído original. Moradores da rua, entre eles o major Lisboa, acordaram também com a cantoria de mais de 100 escravos.

Com porretes, os negros aumentavam o barulho quebrando as cabaças. “Minha bisavó, escrava, sempre contava essa história. Dizia que os negros cantavam assim: ‘Água trouxe cabaça, cabaça não trouxe a água’”, lembrou a quase centenária Elisa Gomes Curado, moradora de um casarão centenário, na Rua do Rosário, vizinha ao ponto onde terminava o Rego das Cabaças — nome dado pelos escravos.

Sentindo-se insultado, Lisboa saltou da cama, pegou uma arma de fogo e saiu. Encontrou na rua o juiz José Rodrigues Costa. Lisboa trocou a espingarda por uma espada, partiu para cima do magistrado e arrancou-lhe a peruca. Acabou preso e levado a Vila Boa (atual cidade de Goiás), então capital do estado, em 15 de outubro de 1771. Voltou para casa, livre, em 3 de dezembro de 1773.

Fuga em massa


O Rego das Cabaças perdeu a utilidade com o declínio da mineração, entre o fim do século 18 e o início do século 19. As atividades econômicas se voltaram para uma agricultura de subsistência e pecuária extensiva.


A população caiu de 10 mil habitantes, no pico da mineração, para pouco de mais de 2 mil, ao fim da exploração do ouro. Os escravos formaram comunidades em volta das grandes fazendas do lugar. Dessa forma surgiu o povoado de Mesquita, conhecido pela produção da marmelada, doce quase em extinção. A comunidade faz parte da Cidade Ocidental, desmembrada de Luziânia. O Mesquita concentra algumas das mais fortes lembranças do regime escravocrata nas terras hoje ocupadas pelo DF e pelas cidades do Entorno. No lugarejo, parte das cerca de 300 famílias negras vivem como os ancestrais há 200 anos, sem luxo, conforto, assistência médica, comendo apenas o que tiram da terra. Reconhecido pelo governo federal como área remanescente de quilombo, ele cultiva goiaba, laranja, cana-de-açúcar e mandioca, entre outras culturas. Mas nenhuma é tão marcante como o marmelo, fruto usado na produção da marmelada.


Bandeirante paulista


À procura de novas minas de ouro, o bandeirante paulista Antônio Bueno de Azevedo partiu de Paracatu (MG), seguindo para noroeste, até se aproximar do Rio São Bartolomeu. Após três meses, seguiu para o oeste e alcançou as margens do Rio Vermelho. Em 13 de dezembro de 1746, enquanto descansava às margens de um córrego, notou pepitas de ouro no leito. No dia seguinte, ergueu festivamente um cruzeiro e dedicou as minas e o futuro povoado a Santa Luzia.




Foto: Alexandre Moska 2010)


A imagem apresenta na parte inferior, pequenos arbustos, vegetação tipica do cerrado, e no alto, o morro do Falcão, que fica atrás do setor Jofre Parada, em Luziânia Go. O morro apresenta um corte horizontal, uma espécie de cicatriz, marcas do trabalho escravo, que originou o Rego Saia Velha com mais de 48 Km de extensão. Foto tirada das mediações do Clube AABB, na região que se abre para um grande vale, onde o acesso se da através de uma pequena trilha.


"No dia 11 de abril de 1768, fundou-se no arraial uma sociedade entre o capitão João Pereira Guimarães, Manoel Pereira Guimarães, Manoel Ribeiro da Silva e Ventura Álvares Pedrosa, homens ricos e possuidores de grande escravatura; para canalizar a água do ribeirão Saia Velha e explorar as minas do Cruzeiro, próximas à povoação.

Tendo o major José Pereira Lisboa declarado em palestra que a água do Saia Velha poderia vir às minas do Cruzeiro não em rego ou canal, mas em cabaças e que duvidava do cometimento do capitão João Pereira Guimarães e seus sócios, os intrigantes trataram logo de levar esta conversa ao conhecimento de Guimarães e este, recebendo o pião na unha, tomou nota e esperou.


A sociedade atacou com força e tenacidade os serviços do gigantesco rego, os quais sendo começados em abril de 1768 continuaram por todo ano de 1769 e, a onze de setembro de 1760, quando menos se esperava, foi aberto o dique que tinha sido feito nas Terras Altas, e água jorrou barulhenta, pela rua do rosário abaixo, conduzindo um turbilhão de cabaças, que produziram um ruído original, acompanhado por uma canção esquisita e insultuosa, cantada por mais de 100 escravos que, com cacetes quebravam as cabaças. Chegando o Major José Pereira Lisboa a janela de seu sobrado, sito a rua do rosário, viu aquele espetáculo tão fora do comum e ouviu que a canção lhe dizia respeito e era muitíssimo ofensiva a seus brios. Sem perda de tempo, saltou a rua e, com uma arma de fogo, procurava repelir a ofensa que lhe era feita. Nesse momento apareceu o Juiz ordinário José Rodrigues costa que, em vez de acalmar os ânimos, tomou o partido do genro e parentes de Guimarães que eram os autores do insulto, pois o próprio Guimarães dele não fez parte, porque estava doente, de cama, em sua residência, no Engenho da Palma.


Em seguida, chegou da chácara de Lisboa, que ficava de vista, um grande contingente de escravos, feitores e amigos, chefiados por seu filho Lourenço Lisboa e o conflito assumiu proporções assustadoras. Indignado com a parcialidade do Juiz, Lisboa atirou ao lado a arma de fogo e, sacando do espadim, arrancou-lhe o chinó, deixando-lhe a calva à mostra. Intimado pelo Juiz para se entregar a prisão, Lisboa a ela não se opôs, porém o povo, vociferando de ódio, procurou impedi-la, dando viva a Lisboa e morras ao Juiz. A muito custo, Lisboa, que era homem ilustrado, pacato e respeitador das leis, convenceu os seus amigos que para mais facilmente provar a sua inocência convinha não haver reação; desceu, então, para a casa que servia de prisão, acompanhado por mais de 1000 pessoas.


Nada mais burlesco e nada mais engraçado do que aquele juiz sem peruca e sem chapéu, todo molhado e cheio de lama, a frente dessa onda revolucionária, que tão positivamente estigmatizava o seu baixo procedimento e que de um momento para o outro podia linchá-lo. O capitão João Pereira Guimarães, apesar de doente apareceu a noite no arraial e solicitou a soltura de Lisboa, perante quem se justificou; porem o juiz a nada quis atender chegando mesmo a indispor-se com o Capitão Guimarães. A 15 de outubro de 1771, seguiu escoltado com as devidas honras, para Vila Boa, o major José pereira Lisboa.


Nesse dia, antes de amanhecer, a praça unida à prisão em que estava o ilustre criminoso, regurgitava de povo para obstar a sua partida; mas Lisboa nisso não consentiu. A 03 de dezembro de 1773, voltou Lisboa de Goiás, sendo recebido com as mais ruidosas manifestações de alegrias por parte do povo, indo ao seu encontro mais de duas mil pessoas. Apeou-se na Matriz, onde o esperavam o vigário, e todo o clero e as irmandades de onde assistiu ao te deum, em ação de graça pelo seu livramento. – é esta pequena história do célebre rego de Saia Velha, que ainda hoje é admirado e que tem sido ultimamente objeto de estudos, para o futuro abastecimento de água desta cidade. O incidente havido com o major Lisboa tirou aos empresário dessa importante obra o prazer de gozá-la e conservá-la, tanto que a água correu nas minas do cruzeiro “hoje Cazil” por muito pouco tempo, sendo a conservação do rego logo abandonado.


Esse serviço ali esta feito com seu enormes aterros e seus cortes admiráveis; falta agora que os habitantes de Santa Luzia se congreguem e façam no rego os necessários reparos, para que tenhamos um farto abastecimento da excelente água do Saia Velha.


– Quer é poder: A realização desse importante melhoramento não é tão custosa como a principio pode parecer; e com isto a nossa terra lucraria a imensamente. A água, com um percurso de cerca de 04 légua nos chegaria suficientemente oxigenada e, além disso, poderia melhorar muitíssimo os campos por onde tem de passar; pois, é sabido que todo o límpido ribeirão pode ser canalizado para esta cidade, pelo extenso e afamado rego."


(Do Memorial Gelmires Reis, Casa da Cultura de Luziânia.


Livro: Almanach de Santa Luzia; Organizado por: Evangelino Meireles e Gelmires Reis, 1920, Tipografia de O Plnalto. Santa Luzia – Go. Pág. 16 a 20).


Texto tirado do livro de Gelmires Reis, transcrito por (Transcrito por: José Álfio e Rosana Roriz de Lima Reis.) e publicado pela ONG Proteger Luziânia





Comentários


2 Jornal ID Novo.png
Doar com PayPal

Assine GRÁTIS nosso newsletter

© Copyright 1998-2023. Todos os direitos reservados a J&C Gráfica e Editora LTDA-ME (Ocidental News/Jornal Identidade/Jornal'Eco) e a Putzgrila! Produções e Serviços. Os materiais publicados nesta plataforma não podem ser republicados, transmitidos por broadcast, reescritos ou redistribuídos sem a prévia autorização.

bottom of page