A origem da Marmelada
A receita da Marmelada é simples! Marmelo, açúcar e água. E para entender um pouco mais sobre esse doce vamos atrás da origem dos ingredientes.
Essa história é mais antiga do que se imagina. O marmelo é um fruto nativo da Ásia Ocidental e foi cultivado pela primeira vez no Oriente Médio, nativa da região dos mares Cáspio e Negro. Seu cultivo deu-se na Pérsia Antiga, onde está a Turquia nos dias atuais. O fruto se espalhou pela África e chegou a Europa ainda nos primeiros séculos. Chegou ao Brasil nas Grandes Navegações e ganhou fama pela fabricação da marmelada.

O marmelo tem cor forte e amarelada, seu sabor é acido e azedo. O pomo é firme e duro. Sua melhor forma de consumo é cozido, seja receita doce ou salgada.
A Turquia ainda é o maior produtor de marmelo do mundo, seguido pela China, Uzbequistão, Marrocos, Iran e Argentina, de onde vem a maior parte do marmelo usado no Brasil para produzir a marmelada industrial. Por ser vizinha da Turquia, a Grécia conheceu o marmelo antes do restante da Europa. O marmelo era o símbolo do amor e usado em cerimônias de casamento. Seu aroma e propriedades medicinais já eram conhecidos e utilizados pelos gregos, porém ainda não se fazia marmelada na Grécia.

O pé de marmelo tem galhos finos e pequenas folhas. Este é o mais antigo ainda vivo do quilombo Mesquita com mais de cem anos. Um símbolo da comunidade.

Oriundo da Turquia, o marmelo só nasce espontaneamente no Oriente Médio. Foi cultivado pelos árabes na Península Ibérica durante a expansão muçulmana.
Observe no mapa a proximidade do Egito com o Oriente Médio, muitos até confundem e acreditam que o Egito pertence ao Oriente, mas o Egito fica na África e foi através dele que o fruto entrou no continente africano. Nesse tempo, ainda não havia comércio marítimo. Estamos falando de 6 mil anos atrás. Portugal ficava bem distante e era separada da Turquia pelo mar, mas pela terra, o marmelo desceu pelo Egito e subiu pelo Marrocos. Como se pode observar no mapa do mundo, o Marrocos, na África faz fronteira terrestre com Portugal. E os Africanos levaram o marmelo para Portugal durante a expansão muçulmana na Europa.

O marmelo nasce da flor em uma rosácea. Por esse motivo era considerado um fruto mágico na Grécia Antiga.
O nome científico do marmelo é Cydonia Oblonga e existem várias espécies. É uma árvore da família das roseiras e dá flores assim que começam as chuvas da primavera. Suas flores variam as cores dependendo da espécie. É da mesma família do pêssego, da maçã e da pera. Portanto é considerado um pomo. O Marmeleiro é uma árvore para ser cultivada em regiões mais frias. Quando chegou ao cerrado goiano, foi plantada à beira de riachos, como a água é muito gelada germinou e deu fruto. A colheita do marmelo é feita em janeiro e a poda dos marmeleiros é feita no mês de julho, logo após a lua nova.
O açúcar na mão e o marmelo no pé
Com a invenção do açúcar e o cultivo do marmelo em alta, o continente asiático passou a consumir a marmelada há mais de 6 mil anos.
Os ingredientes desse doce sempre caminharam juntos e seria inevitável que se unissem em algum momento, dentro da imaginação popular. Tanto o marmelo, quanto o açúcar surgiram na Ásia. É fácil entender como surgiu a marmelada quando compreendemos que o marmelo não se come cru. Ele é áspero e muito ácido, portanto, precisava ser cozido com algo que lhe ressaltasse o sabor e equilibrasse a acidez. Bastava cozinhar os marmelos com água e açúcar. Estava pronta a marmelada.

Antes do açúcar, os doces eram feitos com mel, muito usado para conservar as frutas. E era lá que ficavam os marmelos até tomarem consistência e virassem uma pasta. Do latim, veio o nome “Mlimelun” que quer dizer “maçã de mel”. Já tinha aí a deixa para começar a fabricação do doce, só faltava mesmo o açúcar para fazer o casamento perfeito entre os ingredientes.

Como podem observar pelas datas, o açúcar só chegou na Europa 500 anos depois que foi criada no Oriente.
O açúcar se originou na Índia, há 6.000 a.C. A palavra “açúcar” vem do sânscrito (língua indiana antiga), “sankhara”, que significa areia e originou todas as outras versões nas línguas indo-europeias. Na mesma época surgiu outro tipo de açúcar na Nova Guiné. O açúcar também foi produzido no Japão e na China e por todo o Oriente Médio. Depois da invasão árabe na Europa, os ingredientes entraram na Península Ibérica.

No ciclo do açúcar no Brasil, africanos experientes eram traficados para trabalhar nos engenhos. Eles já estavam acostumados com o feitio do açúcar na África.
A cultura do marmelo e do seu fiel escudeiro, o açúcar, já estavam difundidas na Ásia e na África, pois a cultura árabe já havia entrado no continente africano, como está até os dias de hoje sendo a religião muçulmana uma das maiores no continente. E sendo que, árabes não são pessoas nascidas no Oriente Médio, mas pessoas que compartilham dos costumes árabes. Isso explica porque a invasão árabe partiu da África. É importante lembrar que quando entram no continente europeu isso se chama invasão, e quando europeus entram nos continentes já habitados se chama descobrimento.

Quando os africanos Mouros entraram em Portugal e Espanha levaram a cultura da marmelada. Eles viveram lá por 800 anos.
A invasão islâmica da Península Ibérica, também referida como invasão muçulmana aconteceu a partir de 711 até 726 d.C., quando tropas islâmicas foram do Norte de África, sob o comando do general berbere Tárique. Eles cruzaram o estreito de Gibraltar e venceram Rodrigo, o último rei dos Visigodos da Hispânia, na batalha de Guadalete. Após a vitória, termina-se o Reino Visigótico.” E lá se foram com os árabes para a Europa com o marmelo e o açúcar.
A marmelada na Espanha e Portugal
Os mouros habitaram na Península Ibérica por 800 anos até que os cristãos venceram a Guerra da Reconquista e eles voltaram para a África. À encenação dessa batalha, dá-se o nome de Cavalhadas.

Os mouros em domínio de Espanha e Portugal implantaram sua cultura na região.
Os Árabes dominaram a Península Ibérica (Portugal e Espanha) por 800 anos. Neste tempo a cultura árabe predominou no local até que vieram as Cruzadas e o fortalecimento dos cristãos europeus através da igreja e aconteceu a famosa Guerra da Reconquista onde os cristãos conseguiram tomar de volta a Península Ibérica e os mouros voltaram para o Marrocos convertidos ao cristianismo.

Mapa da Península Ibérica. Onde os mouros viveram por 800 anos. De 711 até 1492.
Os mouros foram com o milho e os portugueses e espanhóis voltaram com a pamonha. Ou melhor, os mouros foram com o marmelo e a cana de açúcar e os europeus voltaram com a marmelada e apresentaram como sendo algo típico da Europa. Ledo engano, pois o marmelo no Oriente Médio nasce espontaneamente por ser uma árvore nativa, porém na Europa é preciso cultivá-la para que nasça. Da mesma forma, a cana de açúcar; Sem a migração e o cultivo, não poderia haver marmelada na Europa.

A cultura do Oriente Médio já havia dominado parte da África e muitos se tornaram muçulmanos. Ser árabe, ao contrário do que muitos pensam, não significa nascer nos países Árabes, mas comungar de sua cultura e religião.
Imagem: Os Mouros construíram palácios luxuosos quando habitaram a Península Ibérica.

Van Halen - Batalha de Navas de Tolosa - Exposta em Madri no Palácio do Senado.
A batalha de Navas de Tolosa marcou o início da derrota do Califado Homíada e o Rei Maomé XII rendeu-se e retornou ao Marrocos deixando a última cidade que estava sob o domínio Árabe, Cordoba, que é conhecida como a Espanha Árabe por manter até hoje os palácios e a cultura árabe, implantada pelos mouros na Europa. Para comemorar a vitória na chamada Guerra da Reconquista, os cristãos católicos realizam as Cavalhadas todos os anos em alguns estados brasileiros, incluindo Goiás com um dos maiores espetáculos culturais do estado.
As cavalhadas, comemoração da Reconquista da Europa
Os católicos realizam o espetáculo dentro da Festa do Divino Espírito Santo. As Cavalhadas são a representação da Guerra da Reconquista onde os mouros se renderam aos cristãos.
Parecia impossível, mas no dia 2 de janeiro de 1492, os cristãos finalmente se uniram para vencer os mouros e retomar a Península Ibérica depois de quase um milênio sob domínio dos muçulmanos. Os mouros voltaram para a África, reconhecendo que o Deus dos cristãos havia vencido o Deus dos muçulmanos e levaram o cristianismo consigo, mas deixaram para trás lindos e carregados pés de marmelo. Os europeus voltam a dominar a região e todo o cultivo da terra estava ligado diretamente a cultura árabe, donde saíram os marmeleiros que originalmente brotaram do chão.

A guerra terminou em um acordo entre mouros e cristãos.
O cenário estava montado para a criação da receita que conquistaria o paladar dos cristãos europeus. Pouco tempo depois, os portugueses e espanhóis chegariam nas Américas com a marmelada já em caixas de madeira, que foram feitas especialmente para armazenamento nos navios. Os europeus iriam inserir na história do Brasil o doce que nasceu no Oriente Médio, desceu para a África junto com o Islamismo, subiu para a Europa com os mouros e em 1500, cruzou o oceano rumo a continuação dessa história.

A marmelada mostrou sua força e provou que ninguém leva a marmelada na bagagem, e sim a marmelada é que leva, em sua bagagem, a história do mundo antigo, do mundo novo e de todos os continentes. A marmelada ensina que tudo passa e ela fica. A marmelada cura doenças, não estraga facilmente mesmo sem nenhum tipo de conservante em sua receita.
Os pés de marmelo provaram que são duros na queda e resistem a qualquer clima. E a mesma força que há em seu valor nutricional, há também em sua resistência a guerras e conflitos. Os tempos agitados passarão, mas a marmelada permanecerá e prevalecerá sobre quaisquer situações de conflito, guerra ou discordância. Pois, se ela chegou até aqui, seguirá em frente e permanecerá. As Cavalhadas de Goiás não pregam a guerra, mas comeram o novo tempo de paz.

O Marmelo na Grécia
A primeira vez que o marmelo chegou a Europa foi pela Grécia, vizinha da Turquia, como os europeus eram extremamente místicos, o marmelo ganhou um novo sentido.

Para os asiáticos e africanos o marmelo era apenas um alimento, porém, para os europeus era algo místico. Com suas lendas mitológicas, eles deram um novo significado ao fruto. Ele passou a ser símbolo de amor, felicidade e fertilidade sendo suas flores a principal marca de Afrodite.
Na antiguidade a Grécia se encheu de marmeleiros, mas, como não eram comestíveis, os europeus não sabiam o que fazer com eles. Portanto, se utilizavam de seu aroma; O marmelo passou a ser utilizado em casamentos para perfumar o ambiente. O fruto foi cultivado pelos gregos em 700 a.C. na cidade de Cydon, na ilha de Creta.

O pomo das Hespérides, por Pierre Salsiccia.

O marmelo aparece na cultura grega e ficou conhecido como o pomo de ouro ou maçã de ouro e é citado em três contos mitológicos. Ele aparece quando Zeus fez um banquete no casamento de Peleu e Tétis onde a deusa da discórdia, Éris não sendo convidada colocou uma “maçã de ouro” na cerimônia.
Nessa época o marmelo era usado nos casamentos e oferecidos como prova de amor pois, suas flores e frutos eram o símbolo de Afrodite, a Deusa do amor. No marmelo que Éris enviou estava escrito “para a mais bela”. Hera, Atena e Afrodite desejaram o fruto. Zeus mandou que Páris escolhesse com qual das três deusas ficaria o marmelo. Cada uma das deusas ofereceu a Páris uma oferta pela maçã dourada. Hera ofereceu um reinado. Atena ofereceu sabedoria e Afrodite ofereceu a mulher mais linda do mundo. Adivinhe o que Páris escolheu? Isso mesmo! Ele quis a mulher mais linda do mundo: Helena de Tróia!

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Todos sabem que esse romance resultou na Guerra de Tróia e na derrota e fim dessa cidade com a famosa história do cavalo de Tróia, que foi posto dentro da cidade enviado pelos espartanos. Helena era esposa do rei de Esparta, Menelau e isso levou Tróia a ruína. E a famosa maçã passou a ser conhecida como pomo da discórdia – que hoje indica qualquer coisa que faça as pessoas brigarem entre si.
Veja algumas referências místicas do marmelo na arte.
Marmelo, o pomo da discórdia
Coincidência ou não, o marmelo tem sido motivo de discórdia e o local é regido por muitas brigas judiciais. As questões que levam a comunidade a discordar envolvem os moradores mais antigos e até aqueles que passaram a viver lá nas últimas décadas.
De um lado estão os defensores da ideia que define o povo do Mesquita como remanescentes de quilombo, isso significa que os moradores antigos que descendem dos negros que foram escravizados e construíram Luziânia, que era chamada Santa Luzia, têm o direito à herança das terras onde vivem há mais de 200 anos.

As terras foram deixadas pelos bandeirantes que vieram em busca de ouro na região. Eles viveram em Santa Luzia por anos e anos até que o ouro acabou e eles foram embora deixando as terras para os escravos que trabalhavam nos garimpos, minas e construções. O Governo Federal entendeu que o Mesquita é uma terra coletiva por abrigar tantas pessoas da mesma família em lugar pelo mesmo motivo. Essas pessoas, tiradas da África e trazidas para o Brasil ficaram longe de tudo o que tinham. Seus filhos nasceram em uma terra sem esperança. Depois que a escravidão acabou, muitos se viram desamparados, por isso, o direito ao pedaço de chão onde vivem. A Lei os assegura esse mínimo de dignidade para poder plantar e viver do fruto do seu trabalho e resgatar sua cultura.

Mas, muitos não concordam com essa visão de mundo. Os que são contra querem o direito de comercializar a terra. Por ser ao lado de Brasília, o Mesquita impede a expansão urbana do DF, ou seja, não se pode construir condomínios na região da Fazenda Mesquita, que os herdeiros garantiram como direito. Há algumas brigas na justiça para que o decreto de Lei caia e que os herdeiros percam o direito a terra para que o comércio seja liberado.

Toda família tem suas desavenças. Se em uma família de cinco pessoas pode se esperar algumas intempéries, imagine um lugar com 700 famílias pertencentes a uma só família. Na comunidade de Mesquita todos são parentes, primos, tios, avós. E vivem com seus maridos e esposas, que envolve cunhados(as) e sogros(as). Família se desentender é normal, parentes discordarem pelos assuntos da família é normal. Haver pessoas no Mesquita, que não pertencem à família é que não é normal. No Mesquita vivem as famílias Teixeira Magalhães, Pereira Braga, Lisboa da Costa e Dutra. E a elas pertencem os assuntos que envolvem essa terra.
O pomo da discórdia e o Cavalo de Tróia
Uma visita que encheu os olhos dos troianos foi o motivo de sua ruína. À primeira impressão os moradores acharam que era uma dádiva dos deuses. Sem saber, os troianos abrigaram a sua própria ruína.
A destruição de Tróia veio a galope. Um cavalo foi mandado como presente e dele saiu o exército inimigo que destruiu toda a cidade. Desse cavalo surgiu a expressão “presente de grego”. No Quilombo Mesquita não é diferente. Por muitos anos, pessoas chegaram de fora e compraram terras na região a preço de banana. Com muitas dificuldades e falta de estrutura eles vendiam não por poucos trocados, mas em troca de promessas de desenvolvimento, emprego e estruturas básicas como água e luz. Essas pessoas não cumpriram as promessas que fizeram. Pelo contrário, cercaram e fecharam suas porteiras usando cada vez mais água e empurrando os nativos contra a parede para esmagarem a sua cultura.

Parece que a deusa da discórdia lançou mão de seu valioso marmelo dourado e contaminou a todos. A intolerância entre familiares e amigos de infância tornou-se comum. O Mesquita já não é mais o mesmo. Aquele dos antigos que viviam em harmonia e com as mais sinceras orações. No documentário de 1975, os quilombolas já previam o que estava por vir e falavam sobre a especulação imobiliária que chegaria até o local com a construção de Brasília. Naquela época, já estavam preocupados com a situação. O tempo passou e a previsão do óbvio se cumpriu. Os moradores antigos, não tendo a consciência da importância da preservação de suas origens e em meio a muitas dificuldades, se deixaram iludir por falsas promessas e acabaram ficando reféns de inimigos dentro de sua própria casa.

A deusa da discórdia lançou o seu pomo dourado e ofereceu a Páris a mulher mais bonita do mundo e ele devorado por sua cobiça, por seus desejos, aceitou a sua oferta. Levou Helena de Tróia consigo, o que resultou nessa guerra que destruiu a cidade. A cobiça de um só destruiu a vida de todos. Os quilombolas precisam se unir novamente em uma só voz, pois eles são poderosos por sua cultura, por sua história. A sua herança mais valorosa não é a terra, mas o que habita na terra. As pessoas, o plantio, as tradições, a marmelada, as festas, as rezas, independente de cor, pois hoje o Mesquita é miscigenado pelos casamentos. Sua riqueza, sua maior herança é a sua história e quem a conhece, saberá do seu poder. Isso é identidade.
Marmelada Branca de Odivelas, uma receita de fé temperada com o requinte da fartura
Criada por freiras do Mosteiro das Odivelas em Portugal no século VIII, a Marmelada Branca virou patrimônio mundial e é guardada pela Igreja Católica.

O Mosteiro das Odivelas foi construído entre 1295 e 1305. O rei D. Dinis doou fornos, moinhos e muito dinheiro, além de terem vinho, azeite e todas os melhores ingredientes. As freiras bernardas da Ordem de Cister deste convento eram filhas de nobres e tiveram a oportunidade de criar receitas que conquistaram o mundo e geram turismo para Portugal até hoje.

Este mosteiro é mundialmente conhecido por sua gastronomia e hoje funciona apenas como um ponto de visitação para turistas conhecerem as iguarias produzidas por lá. Além da marmelada branca, o pastel de nata e outros doces conventuais são servidos aos visitantes. Com o marmelo e açúcar levados pelos Mouros, Portugal refinou a receita pelas mãos de nobres freiras. Por isso a marmelada é considerada um doce conventual. Por esse motivo, os fazendeiros brancos da região se acham no dirito de menosprezar os quilombolas que guardam a tradição da marmelada. Eles dizem que a marmelada pertence aos brancos.

A última monja pertencente as Odivelas, Carolina Augusta de Castro e Silva deixou os manuscritos com as receitas por volta de 1900. O livro de receitas das freiras continha a culinária elaborada por mais de 600 anos. A receita da marmelada branca foi criada por volta de 1250 e era muito requintada. Se no passado o marmelo foi motivo de discórdia, agora pelas mãos das freiras se tornaram bençãos. A receita delicada, feita em tacho de cobre com a polpa da fruta cozida e misturada a calda de água com açúcar até dar o ponto e depois deixada para curar no sol.
Será que as freiras aprenderam a receita dos Mouros que habitaram a Península?

Nas mãos abençoadas das freiras, as compotas e marmeladas rústicas se tornaram uma iguaria sofisticada e refinada. Com toda pompa que o luxo do convento oferecia para ser desenvolvida a receita e firmada para as próximas gerações com direito a livro e confraria. A quem chame a marmelada branca de prima rica da marmelada de Santa Luzia. A cor mais clara se deve pelo fato dos marmelos serem descascados. Por isso se chama Marmelada Branca. Já a marmelada dos descendentes de portugueses que vivem na região da Mesquita está cada vez mais vermelha. Indício de queda na qualidade do produto. Quanto mais pura a marmelada, mais clara ela é.
Os quilombolas seguem a receita à risca e cumprem todas as tradições.

A Marmelada no Brasil
Trazida ao Brasil nas Grandes Navegações, a marmelada passou a fazer parte da cultura brasileira através da tripulação que plantou o fruto e implantou o conhecimento no Brasil.

A história do Brasil e de Portugal estão entrelaçadas. O idioma, a agricultura, religião. As Cruzadas e a Guerra da Reconquista colocaram Portugal em uma nova fase. A expansão marítima fez parte desse recomeço. A Europa precisava chegar à Índia para comprar especiarias e conservar seus alimentos para serem comercializados. Os navegadores prepararam as embarcações para contornar o Continente Africano e chegar até as Índias. No meio do caminho atracaram nas américas e chegaram ao Brasil.

Um jantar brasileiro, Debret, 1827.
Os navegadores portugueses levavam sempre caixas de marmelada nas viagens. As caixas eram o recipiente ideal para o armazenamento do doce nas embarcações. A cultura da marmelada veio para o Brasil também em sementes e o fruto passou a ser cultivado. O marmelo foi cultivado em São Paulo e Minas Gerais. Mais tarde chegou a Goiás com as expedições da Missão Cruz e os bandos dos Bandeirantes com seus escravos índios e negros.

Mas, será que os navegadores e bandeirantes eram bons de tacho? Não dá para pensar em um Brasil sem a mão de obra que construiu e levantou essa nação. O capítulo mais vergonhoso da história, a escravidão ainda não é uma página virada. Eles plantaram, colheram, cozinharam; dos 500 anos de Brasil, 400 foram de escravidão e os outros 100 de preconceito. Romantizar o “descobrimento” português e não reparar a injustiça social da escravidão seria continuar cometendo a injustiça do passado. É preciso lembrar que os saberes dos africanos contribuíram para a implantação e preservação da cultura do marmelo. A feitura do doce, das caixas, do açúcar, tudo passou pelas mãos dos negros no Brasil. Hoje, a colônia permanece. Fazendeiros terceirizam a mão de obra e os saberes dos quilombolas e querem ser donos da cultura. O racismo estrutural continua a escravizar mentes e corações. Já é hora de quebrar os grilhões.

Os escravos faziam todo o trabalho no Brasil Colonial, inclusive o cultivo e preparo dos alimentos.
Conheça mais sobre a Marmelada de Santa Luzia:
Confira: Trabalhos acadêmicos sobre o Quilombo Mesquita:






















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