“Faroeste Caboclo” vira filme e tem Jardim ABC como cenário
Segundo o diretor René Sampaio, o Jardim ABC é muito semelhante à Ceilândia dos anos 70, quando o correu a narrativa da música

A canção de autoria do compositor Renato Russo, líder da Legião Urbana, banda de Rock que teve seu auge na década de 1980 virou filme e foi parar nas telonas por todo o Brasil. Renato Russo foi o compositor que cantou os conflitos dos jovens como nenhum outro fez, e por este motivo o cineasta René Sampaio decidiu transformar a canção em filme.

O cinema em Brasília tem tomado forma e conquistado espaço no cenário nacional e para dar vida a essa história René escolheu o Jardim ABC, bairro da periferia da Cidade Ocidental para ser palco desta trajetória. O cenário construído pelas mãos da desigualdade social foi fiel a Ceilândia dos anos 1970, segundo o diretor que montou uma cidade cinematográfica e alguns cenários para deixar o local de acordo com a época em que se passa o filme.

A canção “Faroeste Caboclo” eternizou a saga de João de Santo Cristo narrada por Renato Russo. Vinte anos depois a extensa letra da música está na ponta da língua dos jovens que até hoje se emocionam ao ouvir e cantar a música da Legião. A estória relata a realidade de uma boa parte da camada social das periferias de Brasília formadas em sua maioria por imigrantes que vieram em busca do sonho da capital.

A cidade construída por Niemayer para ser a sede administrativa de um Brasil, que segundo Renato é responsável pela decadência moral de pessoas de bem que em busca de oportunidades se deparam muitas vezes com uma realidade violenta que ceifam vidas inocentes. “O processo foi riquíssimo e cheio de conquistas e surpresas maravilhosas. A adaptação é uma reação aos sentimentos que a música desperta e muito calcada nas peripécias narradas na letra”, contou René com exclusividade ao Jornal Identidade.

Luz, câmera, ação!

Em um ambiente aparentemente descontraído cerca de 40 pessoas compõem a equipe que sincronizada tem a missão de realizar um trabalho perfeito. As roupas confortáveis para suportar as longas horas de trabalho para gravar uma pequena cena que dura às vezes alguns minutos.

As realidades se misturam durante as gravações. De um lado o glamour do cinema, atrizes e atores famosos, tecnologia e um rico mercado. Dou outro, a favela, vizinhos na porta olhando aquilo tudo imanavam que um dia poderiam estar do outro lado das câmeras e fazer parte do fantástico mundo do cinema.

As duas realidades contrastantes eram amenizadas pela atuação dos moradores que figuravam e puderam viver um pouco desta nova realidade que chegou até eles. E os moradores do Jardim ABC puderam viver um dia de estrela.

Concentração, disciplina, pausa para passar o avião. Qualquer ruído durante a gravação pode colocar todo o trabalho em risco. A cena é repetida por 4, 5 horas seguidas. Em baixo de sol escaldante ou em frio de doer os ossos, até que cada personagem tenha cumprido seu papel com excelência.

A gravação que durou o mês inteiro e trouxe cenas como:
A cena em que João de Santo Cristo leva Maria Lúcia até um bar em que o Trio Siridó está tocando. “Nós tocávamos em Brasília e nas cidades satélites no tempo em que passou a música”, conta o sanfoneiro. O dono do bar em que e passou a cena é José Soares conhecido por todos no local. “Quando abri esse bar nunca imaginei que isso fosse acontecer”, conta. De um lado, René explica o papel à Isis Valverde que se prepara para entrar em cena. Dou outro, o morador assistia atento ao movimento inédito e inesperado. A atriz Isis valverde gravou até às 5 da manhã apenas com uma camiseta, para quem conhece o frio que faz no Jardim ABC durante a noite pode imaginar o que ela passou. Enquanto a equipe vestia casacos e cachecóis ela estrelava lindamente com uma blusa de renda. Merece o Oscar!

Outra cena que teve o ABC como cenário foi a que o primo do Santo Cristo, Jeremias, o ensina a atirar em baixo de uma árvore. Desta vez Isis não participou por ter passado mal por conta do imenso calor que fazia no dia. Mais uma cena muito interessante foi a chegada de João em Brasília que passou na avenida principal do ABC. Eles montaram um cenário e fizeram as casas como as da Ceilândia da época que acharam registradas em fotografias. A dona de casa Marizete dos Santos assistia a tudo e se sentiu feliz por poder acompanhar de perto a gravação das cenas.

Os figurantes que estrelaram puderam experimentar um pouco da vida dos artistas. Carmelita Gomes de Oliveira, 62 anos, moradora da S.Q. 11, não imaginava que um dia poderia brilhar nas telas do cinema.“Eu estava no baile da terceira idade quando o Marconi chegou com o pessoal da filmagem dizendo que precisavam de pessoas para a figuração. Eu nem pensei, eu digo: eu vou! Dançar é comigo mesmo!”, disse a pernambucana.

“Eles pegaram o nome e telefone, tiraram foto da gente, e disseram que fariam contato depois eles disseram que não precisava levar nada, pois eles fariam a maquiagem e o figurino. Eu estava com o cabelo pintado, então eles colocaram um lenço na minha cabeça. Aí me perguntara se eu queria ser a dona do bar e eu fui. Aí eu servia a cerveja pra eles e os copos, e ele levava e bebia no copo com ela. O Fabrício tomou foi muita batida de gengibre porque tava muito frio e ele tava gripado. Foi muito bom. Eu não imaginava passar por isso. As pessoas me ligam pra dizer: ‘Ah! Eu te vi! Você tá participando do filme.Mesmo sabendo que vai passar rápido, foi bom! Na minha idade, com 62 anos, eu ter a oportunidade de participar de uma coisa como essa, é muito bom! Quero ver o filme no cinema e vou ter ele em casa para guardar de lembrança. Eu sei que não vai aparecer, mas eu tive a oportunidade de conhecer o Fabrício. Eles cobram muito, são muito exigentes! A produção organizou tudo! Cada detalhe”

As fotos são de Claudio Reis.
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