Folia de Nossa Senhora da Aparecida
A folia é a última do ano e essa termina exatamente aonde começou. Na casa de Dona Antônia Pereira Braga. Depois de um longo ano de trabalho registrando as Tradições Católicas foi surpreendente terminar no ponto onde começou. Desde a primeira visita do Jornal Identidade nessa antiga casa todas as coisas mudaram. Não é simples falar de quilombo. Quase 10 anos depois, firmes no propósito de proteger o patrimônio cultural da Cidade Ocidental e do Quilombo Mesquita, a reportagem do Identidade volta e termina e que foi começado. O mapeamento cultural finalmente está pronto. Todas as festas foram registradas e a comunidade pode enfim, bater no peito e se afirmar enquanto quilombo, sem medo, sem receio, sem preconceito. Dona Antônia Pereira Braga não está mais presente, mas a sua casa permanece de pé e recebendo a tradição. De onde ela estiver deve estar orgulhosa de seu povo.
Veja a primeira reportagem nesta casa publicada em 2012.

A folia
A Folia de Nossa Senhora Aparecida passa nos lugares mais distantes do quilombo. A visita é esperada com anseio. Quando os foliões chegam trazem alegria e paz. Eles rezam, cantam, tocam, oferecem todo carinho e atenção e seguem para outra casa.
O giro é feito durante dias até chega a hora de entregar a folia na Capela de Nossa Senhora Aparecida no Jardim Edith filiada a Capela de São João Batista no Jardim ABC. O Edith fazia parte do quilombo e foi desapropriado pela comunidade em benefício das famílias que foram morar no loteamento construído no local. Com recorrência os moradores são iludidos com a ideia de que podem perder suas casas por causa do registro do quilombo. Não é verdade. A líder comunitária Sandra Braga afirma que o terreno foi vendido por um quilombola há muitos anos e que em consideração a essas famílias o Jardim Edith foi retirado do processo de desapropriação. "são famílias carentes que vivem naquela região e nós faremos de tudo pra que elas permaneçam em suas casas", afirma Sandra.
Já a casa que pertenceu a Dona Antônia fica ao lado da fazenda do prefeito Fábio Correia. Ele construiu sua propriedade nas terras que pertenciam a ela. Como não tinha esposo vivo e em filhos morando com ela e a idade já era avançada, ela confiou as terras em troca de promessas de melhorias no local. Hoje, sua sobrinha sofre com a falta de água, pois o rego que passa dentro da fazenda do prefeito é utilizado para seus animais. A água chega suja e impossível de ser consumida. Em uma comunidade que vive de água de nascente é imprescindível que cada vizinho tenha consciência do uso da água para que todos possam se abastecer com dignidade.
A folia passa, os problemas ficam. E com fé esse povo leva a vida de reza em reza, de oração em oração, de cantoria em cantoria, de promessa em promessa. Não só das promessas que fazem aos santos esperando por dias melhores, mas também das promessas de especuladores que chegam prometendo trazer estruturas para facilitar a vida dos mais velhos, mas no final das contas só fazem tirar o pouco que eles têm. Que os céus ofereçam dias melhores ao Quilombo Mesquita e seus devotos.
TBT da primeira visita na casa de Dona Antônia e Vicentina em 2011.

Depois foi a vez da visita na casa de Danusa Lisboa.
Danusa Lisboa é um dos orgulhos do quilombo. Formada em agronomia pela UNB ela é uma das poucas que chegaram tão longe. A publicação na página do Quilombo Mesquita retrata o sentimento da comunidade pela formanda, agora já pós graduada.
"Em seu trabalho de conclusão de curso, Danusa abordou os pequenos agricultores da comunidade como tema. Mostrou a universidade nosso povo, nosso ensinamentos, nossa ciência com a terra. Danusa não se formou sozinha, ela se formou com Mesquita, pois é isso que todo quilombola faz, leva sua comunidade para dentro da universidade, do trabalho e de outros espaços. Agradecemos Danusa por resistir e manter seu sonho e o sonhos dos nossos antepassados falecidos e vivos, presente! Nossa história continua !! Parabéns!"

Mas o estudo não mudou sua conduta dentro da comunidade. As criada dentro das tradições, ela e sua mãe Genilse Lisboa continuam oferecendo a casa para receber os foliões. Sua mãe está em todas festas sempre trabalhando e ajudando na cozinha para oferecer o seu melhor segundo a sua fé. É importante frisar mais uma vez que toda a alimentação dos festejos da comunidade são doações dos moradores e comerciantes. Os políticos só vão pra comer. E são muito bem servidos. E a comida é boa. A melhor que existe no mundo! Feita com amor, fé, respeito e humildade, não alimenta só o corpo, mas também alimenta a alma e fortalece o espírito. Por isso a comunidade tem essas força que vence o dinheiro, vence o poder, vence a ganância, vence o medo. A força e a coragem do Quilombo Mesquita não não compra, se constrói com uma vida.
Texto: Jack Lima
Fotos: Marcelo Mançano Aro






















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