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Folia de Reis, o evangelho a todos os povos

12 de mar. de 2021
7 min de leitura

No dia 6 de janeiro, logo após as festividades de Natal é comemorado o Dia de Reis. No clima de confraternização e amor das festas natalinas é dado início a história das tradições católicas.


Folia de Reis no Quilombo Mesquita


Os sinos da igreja soam avisando que a noite chegou e está na hora dos foliões entrarem na igreja para desalvorar a folia. Depois de algumas noites girando pelas casas na comunidade, eles finalmente chegam ao fim de mais uma jornada de fé e esperança para o ano que se inicia.



Enfileirados eles caminham em direção ao templo para cantar em frente ao presépio. O cenário que para muitos é apenas um adorno de fim de ano, para o Quilombo Mesquita tem muito significado. O pequeno presépio com os personagens da festa de natal é a representação dos Reis Magos que visitaram o menino Jesus em reverência ao nascimento do Rei dos Judeus.



Diferente das outras festas, os foliões caminham durante a noite de casa em casa levando canções que memorizam contos natalinos regionais e fazem rezas que abençoam as famílias. A exemplo dos Reis Magos Assim que anoitece eles começam a girar nas visitações e por volta das duas da manhã eles param com para descansar e recomeçar no dia seguinte até que tenham completado o giro. “Entramos em todas as casas que nos aceitam. Às vezes a pessoa tem outra religião e não quer, então passamos adiante”, conta seu Mauro Melo.



Na folia de Reis, diferente das outras, mulheres não podem participar. É uma tradição que só homens possam tocar e cantar, mas a mulheres acompanham a procissão. Estudiosos afirmam que por ser a mais antiga tradição advinda de um tempo em que apenas os homens saíam de casa para rezar a Folia. As viagens eram longas e difíceis, então as mulheres ficavam em casa cuidando do lar e dos filhos. A tradição foi passando nas gerações e o costume não foi adaptado. Alguns antigos acreditam que por serem homens os Reis Magos, a folia seja exclusiva deles. Nas outras folias as mulheres participam normalmente, apesar de ainda serem minoria.



Além da Folia de Reis, o Quilombo Mesquita é guardião de muitas outras riquezas culturais. Os pousos, a catira, a fabricação artesanal de doces. Este é apenas o início de uma longa jornada de fé e conhecimento sobre a cultura local preservada por essa comunidade que vivencia e abriga nos seus modos e saberes, muitos pedaços do Brasil. As tradições estão casa dia mais ameaçadas pela especulação imobiliária e pelo avanço das cidades em direção ao território do Quilombo Mesquita. Esses registros trarão a consciência da importância da preservação desse patrimônio enquanto ainda há tempo.


O Dia de Reis é uma homenagem aos Reis Magos que visitaram o menino Jesus logo após o seu nascimento. Guiados por uma estrela, saíram do Oriente e foram até Jerusalém para levar presentes ao Rei dos Judeus. Acabava de nascer a criança que cumpriria as profecias messiânicas. A visita dos Reis Magos representa a adoração de todos os povos a Cristo. Eles simbolizam que o evangelho pode alcançar o mundo, e não somente os judeus que eram herdeiros da promessa de Abraão. Os Reis do Oriente ensinam que pela fé, independente do lugar de onde vêm, todos podem alcançar a salvação. Não pela cor da pele, mas pelo amor de Cristo.


Os Reis Magos mostraram que muitos judeus, mesmo estando em Jerusalém com acesso ao Velho Testamento, não se importaram com o nascimento de Jesus. Entretanto, outros povos fizeram questão de adorá-lo. Com o coração em fé sincera, eles percorreram uma longa jornada para adorar o filho de Maria e José, nascido para salvar o mundo do pecado. Essa data também é chamada Epifania do Senhor.


Estes povos que visitaram a Cristo em seu nascimento tinham conhecimento de ciências astronômicas. Os povos antigos estudavam os céus e calculavam tudo pela posição dos astros como o dia e a noite que é um ciclo do sol. Os meses que são as quatro fases da lua. E o ano que são as quatro estações. O surgimento de uma nova estrela se deslocando para certa direção, fez com que os magos, que eram os cientistas da época, percebessem algo diferente e reconhecesse, com provas racionais, que alguma coisa divina acontecia. Naquela época não se fazia distinção entre a astronomia científica e a astrologia mística. Eles seguiram a estrela de Belém em busca do cumprimento das profecias messiânicas.


No livro de Números, capítulo 24:17, a profecia relatava uma estrela, representando o nascimento de um rei. “Eu o vejo, porém não agora. Eu o contemplo, porém não de perto. De Jacó nascerá uma estrela, e de Israel se levantará um cetro”. Na antiguidade, era comum a crença de várias culturas, em astros que surgiam com o nascimento de pessoas importantes. Nas escrituras também são comuns o aparecimento de fenômenos naturais como modo de comunicação entre Deus e os homens, como o arco íris do dilúvio, ou a nuvem do deserto, e até mesmo a sarça ardente de Moisés.


Atentos a todas essas coisas, os primeiros adoradores de Cristo não foram os que estavam diretamente ligados a promessa, mas os povos que viviam distantes, com diferenças culturais. Desta forma, surge o conceito de expandir a mensagem de Cristo a todos os povos. Como forma de compartilhar de uma benção que dantes seria direcionada a um povo só. A missão evangelística se deu, não por ambição de poder, crescimento e enriquecimento das instituições religiosas, mas da democratização do evangelho e do direito a todos os povos terem acesso a este meio de salvação, o sacrifício de Cristo, o Filho de Deus. Esse abraço a povos e culturas levam missionários a percorrerem todo o mundo em busca de almas que estejas abertas para receber a mensagem da graça pregada por Cristo Jesus.


A Primeira Procissão


Nos Quatro cantos do Brasil, a cultura da Folia de Reis se faz presente. No Quilombo Mesquita a tradição é preservada.



No Brasil, o dia de Reis é comemorado em quase todos os estados, principalmente no interior. Essa festa é bem folclórica e abriga algumas lendas que passaram pelas gerações com registros orais.


Conta-se que os Reis Magos visitaram a Herodes para perguntar sobre o local do nascimento de Jesus. Herodes chamou os sacerdotes e lhes perguntou o que diziam as profecias. Herodes mandou que seus guardas os seguissem, pois tinha medo que este novo rei que nascia tomasse seu trono. Dessa perseguição deu-se o chamado “massacre dos inocentes”.


"Logo os Reis Magos perceberam que o que procuravam não estava nos palácios", disse o pároco Frei Alexandre, durante a homilia, na missa da desalvorada da V Folia de Reis, na Igreja de Nossa Senhora da Abadia, no Quilombo Mesquita.


O palhaço que acompanha a Folia de Reis, representa a figura dos guardas de Herodes que seguiram os Reis Magos para chegar até Jesus. Porém, eles desistiram de entregar Jesus a Herodes e para se disfarçar usaram máscaras para não serem mortos pelo rei. O ofício do palhaço é passado de pai para filho ou para algum membro da família que queira continuar a tradição. No Quilombo Mesquita não se usa a figura do palhaço na Folia de Reis, mas o espírito é o mesmo. Acolher a todos com o amor inspirador que essa festa católica representa.


A cultura popular é bem evidente na Folia de Reis, e alguns textos foram acrescentados à história bíblica. O imaginário popular enriqueceu a visita dos Magos com fábulas que são temas das canções levadas de casa em casa anunciando a chegada do menino Jesus. Cada folião traz consigo as cantigas que aprendeu com os mais antigos. Eles fazem também os seus próprios versos, que podem ser improvisados.



Os foliões visitam as casas durante a noite, representando o caminho que os magos fizeram guiados pela estrela de Belém. A mistura da cultura dos colonizadores com o folclore dos nativos brasileiros e dos negros africanos faz da folia uma tradição regional, com suas características próprias. “A primeira procissão foi a visita dos Reis Magos ao menino Jesus. É a folia mais antiga do mundo”, explica o folião Roneide Benedito.



A caminhada de fé dos Magos do Oriente inspirou toda a humanidade a percorrer distâncias, pela fé, em uma jornada espiritual para oferecer o melhor a Deus. Estes foliões passam de casa em casa abençoando as famílias sem ganhar nada em troca, a não ser a recompensa de servir a Deus e ver no próximo a satisfação de receber a atenção, o conforto das rezas e a alegria das canções entoadas por eles. Seus corações são guiados pela estrela maior que é Cristo e o seus destinos a Deus pertencem. Eles seguem iluminados levando graça, paz e muitos milagres como resposta da fé de cada coração devoto.



Pousos e presépios, memória de Reis


A tradição manda que o presépio seja desmontado no dia de Reis, pois neste dia os Reis comemoraram o retorno da procissão e foram recebidos com grande festa.


Ainda no clima natalino, quando se comemora o nascimento de Jesus, uma herança maravilhosa foi deixada pela visita dos Reis Magos, são os presépios de natal. Imagens e objetos são montados para memorar o nascimento de Jesus. Com seus pais José e Maria, animais do estábulo, anjos e os reis, o cenário fica completo para relembrar o lugar humilde onde nasceu o Filho de Deus.


Não há relato bíblico de que os reis seriam três, mas a dedução dos três presentes faz com que sejam chamados “Os Três Reis Magos”. Belchior, Baltasar e Gaspar são seus nomes, suas origens também são deduzidas por serem reis do Oriente. Os presentes levados pelos reis magos representam características de Jesus. O ouro, representa a realeza; o incenso, a divindade; e a mirra a humanidade. Daí surgiu a cultura de trocar presentes nesta data. Com o passar do tempo, tornou-se um ato mais comercial perdendo suas essências do verdadeiro origem e significado do natal. A cidade aderiu a cultura de Reis na parte comercial, dos presentes, a parte rural aderiu a procissão e os pousos.


No entanto, o Dia de Reis carrega uma história que poucos conhecem. É que o retorno dos Reis para casa ocasionou em uma grande comemoração. Acredita-se que nesse dia, os Reis Magos chegaram de volta ao Oriente e fizeram uma grande festa para celebrar o nascimento de Jesus. Desse festejo surgiram os pousos de folia, que significam as festas que se fazem para os foliões logo quando terminam suas peregrinações. Os foliões chegam cansados da viagem e são recebidos com fartura de comida e alegria. Por isso, a tradição dos pousos é tão forte na região. Depois da missão cumprida é hora de comemorar.


Logo após a “janta”, o chamado “Bendito de Mesa” onde o folião agradece e se alimenta é realizado um grande baile com danças e muita música a animada. Essa parte é social e celebra a comunhão das famílias. Isso também é herança da diversidade cultural dos Três Reis Magos do Oriente. Na cultura das cidades, os presépios são desmontados na mesma data em que os Reis Magos chegaram da procissão e fizeram uma grande festa. Interligando a cultura da cidade e do campo. Estes dois fatores estão ligados por uma mesma data, dia 6 de janeiro. Dia dos Reis Magos do Oriente.





Texto: Jack Lima

Fotos: Marcelo Mançano Aro



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