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7º Folia de São Sebastião do Quilombo Mesquita

12 de mar. de 2021
6 min de leitura

O Quilombo Mesquita é conhecido pelos pousos de folia, que atraem centenas de fiéis para as rezas todos os anos.



Enriquecidas com danças típicas, como a catira, e muita fartura com as comidas oferecidas pela comunidade, a folia vira festa e sem perder a fé e a reverência, segue com a tradição vinda dos ancestrais.


​​Seu Evandro tira a folia e mantém a fé e a tradição da comunidade.


Evandro Souza e Silva Pereira Braga, 79, é o líder espiritual da folia. Com quase 80 anos, ele não deixa de oferecer aos santos e à comunidade uma vida inteira de dedicação. “Eu parei com as folias por que não estava bem de saúde, mas, depois o coração doeu e eu voltei”, conta. É que Seu Evandro aprendeu desde cedo que o dever com o próximo é uma obrigação para com Deus e servir ao seu povo e sua terra está acima de qualquer dificuldade. “Sou nascido aqui. Meu umbigo está enterrado no casarão do meu avô (Aleixo Pereira Braga). Quando eu era menino, eu ia ao Catetinho buscar madeira pra fazer as caixinhas de marmelada”, explica o motivo de nunca esmorecer na fé e na esperança.


​​A folia passa de casa em casa rezando para abençoar os moradores.


A folia tem como objetivo abençoar as casas da comunidade. Seu Evandro, com os cavaleiros e foliões passam de casa em casa abençoando cada família e pedindo aos céus pelas dificuldades do lar. Cerca de 50 casas são visitadas por dia durante o período da folia, que dura de 1 semana a 15 dias. “Se for acumular todas as bênçãos recebidas nas folias elas serão como as estrelas no céu”, disse. Os foliões tocam e cantam as rezas compostas especialmente para o santo a quem dedicam a folia.

O ofício de folião é uma tradição que passa de geração em geração. Ser folião é um estilo de vida, um sacerdócio.


Em 2019, a comunidade decidiu retornar com a tradição da Folia de São Sebastião que aconteceu entre os dias 15 e 19 de janeiro. O Jornal Identidade registrou o encerramento na casa de Tim e Carmem Lúcia, que ofereceram o pouso aos foliões.

O clima era de amizade, fraternidade e paz. O respeito e o empenho estavam nítidos em cada detalhe, em cada gesto. No trato com os de fora, que são acolhidos como se fossem de casa. No serviço da cozinha, na arrumação da casa. Tudo preparado para, com gratidão, oferecer a Deus, o amor ao próximo.


O clima fraterno das folias atrai visitantes. Na foto, a filha de Bendito Lambari.


Dentro de cada lar, uma esperança levada pela comitiva de foliões com instrumentos musicais. E a ladainha rezada com muita fé, e uma mensagem de paz chega a cada um dos corações. “Esse é o primeiro pouso que dou aqui na minha casa. Quando Seu Evandro me pediu, eu pensei bem, e depois meu coração pediu que eu aceitasse. Foi um trabalho recompensado, porque todo trabalho para Deus é recompensado”, contou Carmem Lúcia Lisboa, 64, a dona da casa onde foi realizado o pouso. Sua irmã, Genilce Lisboa ajuda em todos os preparos e já é conhecida por sempre cozinhar nos eventos do quilombo. “Aqui, um ajuda o outro; quando é na minha casa ela me ajuda e quando é na casa dela eu ajudo ela também”, explicou.


A comida é compartilhada, feita por voluntários e arrecadada na própria comunidade. Todos comem em comunhão.


O motivo de parar para pensar antes de fazer um pouso como este, é que toda a festa é oferecida de graça. Como todas as folias do quilombo, os que chegam são recebidos com fartura e a comunidade tira do bolso para manter a tradição. Não comentam, nem reclamam. Mas, é importante frisar que as festas tão famosas do Mesquita são feitas do suor da comunidade. Eles buscam doações e esperam em Deus para que a provisão chegue e todos possam ser bem atendidos. E a provisão sempre chega.


Beijar a bandeira é um costume antigo, mantido até os dias atuais em sinal de fé e reverência.


O Bendito de Mesa acontece antes do jantar. Primeiro, eles rezam, agradecem e cantam. Só depois se servem de forma ordenada. Primeiramente os foliões, depois os visitantes.

Durante o “Bendito de Mesa”, uma fiel contou que precisava de um pacote de café para atender os foliões que visitariam sua casa e antes mesmo que pudesse comprar, alguém chegou com um pacote de café nas mãos e entregou a ela. “Foi um milagre”, disse ela. Parece simples, mas é em cada detalhe que este povo se mostra forte e independente. Independente de governos, mas, dependente de sua própria fé e amor. Foi caminhando com ajuda mútua que eles construíram um legado cultural inestimável. Mesmo que mãos ambiciosas tentem se apossar deste legado, não poderão prevalecer diante de tamanha fé e riqueza cultural.


Um anfitrião oferece sua casa para que aconteça o pouso de folia. Ele fica responsável por receber os foliões que passam o dia rezando nas casas.


Benedito Pereira Dutra, 58 anos, é esposo de Carmem Lúcia, e com ela ofereceu o pouso em sua casa. Tim, como é conhecido, talvez seja hoje, o rosto mais conhecido do quilombo, pois, seu bar é muito frequentado por visitantes que sempre param para degustar um peixe frito ou um pastel. “Quando eu era menino eu vendia abacate na construção da Cidade Ocidental pra comprar caderno pra poder estudar. Trabalhei nessas fazenda tudo e depois passei no concurso da prefeitura. Agora trabalho na Viação e Obras e cuido desse bar que tenho há mais de 20 anos. Só tenho a agradecer a Deus pelo trabalho e pela saúde que Ele nos dá”, comenta.




​​​​A fila é grande e o respeito é ainda maior. Sem alvoroço, cada um espera a sua hora para compartilhar do alimento servido gratuitamente.


Enquanto os preparativos são finalizados, fiéis já chegam para participar do pouso. Dona Terezinha e seu Antônio foram à Folia em agradecimento a uma cura recebida. “O meu marido caiu e levou 52 pontos na cabeça. Ele viveu de novo”, conta. “Não tenho nenhuma sequela, graças a Deus”, afirma o marido. De relatos como este e de muitas outras curas que é feito um pouso de folia. “Com net ou sem net, o que vale é a fé”, brinca Tereza, sorridente e agradecida pela saúde do marido. “Nós estamos sempre conectados com Deus”, finaliza.


A imagem de São Sebastião fica sobre o altar nos lares que recebem a Folia de 20 de janeiro.


A ativista Célia Braga comentou o retorno da folia de São Sebastião. “Eu me emociono de estar dentro da comunidade vendo tudo isso acontecer. São pessoas que fazem. É gente que acredita no Deus Vivo. O resgate dessa Folia tem muita importância para a comunidade”, revelou Célia que comunga da mesma fé que os demais. “Um dia conversei com um dos foliões e tive um entendimento que quando o folião pega a bandeira desce uma luz lá do céu e essa luz é São Sebastião. É ele que está ali”, explicou Célia emocionada.



Lideranças comunitárias do Quilombo Mesquita se orgulham da tradição.

E como uma boa folia não pode faltar os cavaleiros, Gonsalo Pereira Braga, o Buré, conta como é participar da novena. “É um momento de muita felicidade participar as folias aqui no quilombo porque somos todos parentes. Aqui todo mundo se conhece e há muito respeito pela tradição dos mais velhos. Nós ajudamos na folia, visitamos as casas e depois ficamos um pouquinho na festa porque nós também somos filhos de Deus”, conta.


​​​Onde tem folia, tem grupos de cavalgada. As duas culturas estão interligadas.


Os bailes são famosos pelos festejos de comitivas de cavaleiros e amazonas que costumam acompanhar as folias. Mas é importante deixar claro que a folia é um evento religioso e a festa acontece após o evento, pelas pessoas que vêm visitar e conhecer a tradição. Assim como várias outras folias pelo país, o evento consiste em rezas e em um jantar oferecido àqueles que passaram o dia rezando e cantando nas casas e é finalizado com um festejo familiar com muita alegria.



Mais uma geração sendo formada na tradição.


A Folia de São Sebastião acontece a cada dois anos. A folia vai além da religião porque há católicos em todo lugar do mundo, mas nem em todo lugar do mundo há folia. A folia é uma estilo de vida, que abraça toda a comunidade. Ser folião é um modelo de vida. Independente da crença de cada um, a cultura das folias deve ser reconhecida por toda a sociedade.


Fotos: Marcelo Mançano Aro






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