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7º Folia de São Sebastião do Quilombo Mesquita

18 de out. de 2019
5 min de leitura

O Quilombo Mesquita é conhecido pelos pousos de folia que atraem centenas de fiéis para as rezas todos os anos.


Enriquecidas com danças típicas, como a catira, e muita fartura com as comidas oferecidas pela comunidade, a folia vira festa e sem perder a fé e a reverência, segue com a tradição vinda dos ancestrais.


Evandro Souza e Silva Pereira Braga, 79, é o líder espiritual da folia. Com quase 80 anos, ele não deixa de oferecer aos santos e à comunidade uma vida inteira de dedicação. “Eu parei com as folias por que não estava bem de saúde, mas, depois o coração doeu e eu voltei”, conta. É que Seu Evandro aprendeu desde cedo que o dever com o próximo é uma obrigação para com Deus e servir ao seu povo e sua terra está acima de qualquer dificuldade. “Sou nascido aqui. Meu umbigo está enterrado no casarão do meu avô (Aleixo Pereira Braga). Quando eu era menino eu ia no Catetinho buscar madeira pra fazer as caixinhas de marmelada”, explica o motivo de nunca esmorecer na fé e na esperança.


A folia tem como objetivo abençoar as casas da comunidade. Seu Evandro, com os cavaleiros e foliões passam de casa em casa abençoando cada família e pedindo aos céus pelas dificuldades do lar. Cerca de 50 casas são visitadas por dia durante o período da folia de dura de 1 semana a 15 dias. “Se for acumular todas as bênçãos recebidas nas folias elas serão como as estrelas no céu”, disse.


Em 2019, a comunidade decidiu retornar com a tradição da Folia de São Sebastião que aconteceu entre os dias 15 e 19 de janeiro. O Jornal Identidade registrou o encerramento na casa de Tim e Carmem Lúcia, que ofereceram o pouso aos foliões.


O clima era de amizade, fraternidade e paz. O respeito e o empenho estavam nítidos em cada detalhe, em cada gesto. No trato com os de fora, que são acolhidos como se fossem de casa. No serviço da cozinha, na arrumação da casa. Tudo preparado para, com gratidão, oferecer a Deus, o amor ao próximo.


Dentro de cada lar, uma esperança levada pela comitiva de foliões com instrumentos musicais. E a ladainha rezada com muita fé, e uma mensagem de paz chega a cada um dos corações. “Esse é o primeiro pouso que dou aqui na minha casa. Quando Seu Evandro me pediu eu pensei bem, e depois meu coração pediu que eu aceitasse. Foi um trabalho recompensado, porque todo trabalho para Deus é recompensado”, contou Carmem Lúcia Lisboa, 64, a dona da casa onde foi realizado o pouso. Sua irmã, Genilce Lisboa ajuda em todos os preparos e já é conhecida por sempre cozinhar nos eventos do quilombo. “Aqui um ajuda o outro. Quando é na minha casa ela me ajuda e quando é na casa dela eu ajudo ela também”, explicou.


O motivo de parar para pensar antes de fazer um pouso como este, é que toda a festa é oferecida de graça. Como todas as folias do quilombo, os que chegam são recebidos com fartura e a comunidade tira do bolso para manter a tradição. Não comentam, nem reclamam. Mas, é importante frisar que as festas tão famosas do Mesquita são feitas do suor da comunidade. Eles buscam doações e esperam em Deus para que a provisão chegue e todos possam ser bem atendidos. E a provisão sempre chega.


Durante o “Bendido de Mesa”, uma fiel contou que precisava de um pacote de café para atender os foliões que visitariam sua casa e antes mesmo que pudesse comprar, alguém chegou com um pacote de café nas mãos e a entregou. “Foi um milagre”, disse ela. Parece simples, mas é em cada detalhe que este povo se mostra forte e independente. Independente de governos, mas, dependente de sua própria fé e amor. Foi caminhando com ajuda mútua que eles construíram um legado cultural inestimável. Mesmo que mãos ambiciosas tentem se apossar deste legado, não poderão prevalecer diante de tamanha fé e riqueza cultural.


Benedito Pereira Dutra, 58 anos é esposo de Carmem Lúcia, e com ela ofereceu o pouso em sua casa. Tim, como é conhecido, talvez seja hoje, o rosto mais conhecido do quilombo, pois, seu bar é muito frequentado por visitantes que sempre param para degustar um peixe frito ou um pastel. “Quando eu era menino eu vendia abacate na construção da Cidade Ocidental pra comprar caderno pra poder estudar. Trabalhei nessas fazenda tudo e depois passei no concurso da prefeitura. Agora trabalho na Viação e Obras e cuido desse bar que tenho há mais de 20 anos. Só tenho a agradecer a Deus pelo trabalho e pela saúde que Ele nos dá.”, comenta.


Enquanto os preparativos são finalizados, fiéis já chegam para participar do pouso. Dona Terezinha e seu Antônio foram à Folia em agradecimento a uma cura recebida. “O meu marido caiu e levou 52 pontos na cabeça. Ele viveu de novo”, conta. “Não tenho nenhuma sequela, graças a Deus”, afirma o marido. De relatos como este e de muitas outras curas que é feito um pouso de folia. “Com net ou sem net, o que vale é a fé”, brinca Tereza sorridente e agradecida pela saúde do marido. “Nós estamos sempre conectados com Deus”, finaliza.


A ativista Célia Braga comentou o retorno da folia de São Sebastião. “Eu me emociono de estar dentro da comunidade vendo tudo isso acontecer. São pessoas que fazem. É gente que acredita no Deus Vivo. O resgate dessa Folia tem muita importância para a comunidade”, revelou Célia que comunga da mesma fé que os demais. “Um dia conversei com um dos foliões e tive um entendimento que quando o folião pega a bandeira desce uma luz lá do céu e essa luz é São Sebastião. É ele que está ali”, explicou Célia emocionada.


E como uma boa folia não pode faltar os cavaleiros, Gonsalo Pereira Braga, o Buré, conta como é participar da novena. “É um momento de muita felicidade participar as folias aqui no quilombo porque somos todos parentes. Aqui todo mundo se conhece e há muito respeito pela tradição dos mais velhos. Nós ajudamos na folia, visitamos as casas e depois ficamos um pouquinho na festa que nós também somos filho de Deus”, conta.


Os bailes são famosos pelos festejos de comitivas de cavaleiros e amazonas que costumam acompanhar as folias. Mas é importante deixar claro que a folia é um evento religioso e a festa acontece após o evento pelas pessoas que vêm visitar e conhecer a tradição. Assim como várias outras folias pelo país, o evento consiste nas rezas e no jantar oferecido àqueles que passaram o dia rezando e cantando nas casas e é finalizado com um festejo familiar com muita alegria.


Fotos: Marcelo Mançano Aro

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