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Folia do Divino e catira na casa de Célia Braga

12 de mar. de 2021
5 min de leitura

A Folia do Divino na casa de Célia Braga foi enriquecida com uma apresentação de dança catira.


Catira, cultura dos índios, negros e jesuítas unidos em um só passo


Criada pelos padres jesuítas para estreitar os laços com os nativos indígenas, a Catira se tornou a mais importante dança da região e alegra as festividades católicas até os dias de hoje.


A Catira existe desde a chegada da Companhia de Jesus no Brasil, quando os padres jesuítas evangelizavam os indígenas, primeiros habitantes da América. Não se pode banalizar a relação entre índios e padres católicos, pois as chamadas “Missões” não eram um trabalho apenas espiritual, foi muito mais do que isso. O trabalho dos padres era social e mudou o curso da história do Brasil.


A proteção que os padres jesuítas dispensaram aos índios no Brasil foi fundamental para a construção da cultura que hoje é conhecida. Eles ensinavam, mas também aprendiam e se difundiram com os saberes da mata, da medicina natural e da cultura artística dos povos originários. A Catira é um símbolo da ligação dos padres com os indígenas e traz um pouco da história do Brasil em cada passo. Os anos passaram, a cultura sertaneja carregou a catira nos lombos de seus cavalos pelas estradas, pelas longas jornadas de tropeiros, pelos pousos de Folia e faz parte da cultura goiana bem representada no Quilombo Mesquita. “A Catira é a parte social da folia”, explica o folião Elói. Nossa obrigação é a reza. E quando o dono da casa pede, nós dançamos a catira no final”, mas se o dono da casa não pede, vamos embora”, explica.


Índios já dançavam enfileirados batendo os pés no chão, o ritmo espanhol dos padres jesuítas deu força à tradição.

Não há nada tão empolgante em uma Folia quanto ver uma apresentação de catira bem sincronizada. A batida dos pés alternadas com as palmas misturam-se em um sapateado com ares espanhóis, origem dos jesuítas, e essas palmas bem marcadas é o que dá ritmo à apresentação. A disposição dos dançarinos que ficam frente a frente mostra uma forma diferente de dançar, pois não há contato entre os pares. Enfileirados, lembram as raízes da cultura indígena que até hoje, mantém o costume de dançar desta mesma forma lado a lado e marcando o ritmo com os pés.


A dança era destinada somente aos homens e depois abriu espaço também às mulheres que hoje transmitem essa cultura com força e graça. Isso se deu porque antigamente as mulheres não saíam para peregrinar com os foliões. Ficavam em casa aguardando o retorno dos homens, que ficavam longos dias na estrada. A modernidade incluiu as mulheres na tradição.


Catireiros se apresentam nos Pousos de Folia do Quilombo Mesquita, preservando a cultura goiana e a tradição do Brasil colonial na mistura da cultura indígena com os padres jesuítas.


A Folia do Divino


O Quilombo Mesquita oferece os pousos de folia que atraem centenas de fiéis para as rezas todos os anos. Enriquecidas com danças típicas e uma mesa farta, a folia vira festa e, sem perder a fé e a reverência, segue com a tradição da comunidade. Os pousos acontecem, em grande parte na zona rural, mas, algumas casas no centro da cidade e em outros bairros também mantém a tradição. A festa do Divino é uma das tradições populares mais antigas e sua data seria 50 dias após a páscoa.



De manhã eles tomam o café e se despedem com a oração no altar. Depois vão para o Cruzeiro que são as folhas de coqueiro em forma de coração com as velas acesas. Logo após as rezas iniciais no cruzeiro eles fazem o giro, que são as visitas nas casas vizinhas. Eles rezam na porta e depois entram e rezam dentro da casa. Chegam a visitar 40 casas por dia fazendo orações pelas necessidades do que tem fé no coração e arrecadando ofertas para os pobres. Na volta, rezam no Cruzeiro novamente e depois vão para o bendito de mesa, que é um jantar oferecido pelos donos da casa e com ajuda de voluntários. É comum que a folia se encerre com danças típicas como a catira e a raposa. Eles usam um adereço chamado “divisa”, que é o broche de flor que carregam no peito. A música e as rezas são feitas pelos foliões. A folia é formada pelo alfeire, o guia, o contra guia, o caixeiro, o pandeiro e o ofertório. Os altares são montados dentro das casas e na sala as orações são feitas pela família que ali reside.



Os símbolos do Divino são a bandeira, a pomba, o fogo, a água e o vento. A cor vermelha aparente nas flores, andores, paramentos e arranjos da igreja é o sinal do amor de Deus e também representa o sangue dos mártires. Ocasionalmente, durante a exploração do pau-brasil, os nobres usavam a matéria prima brasileira para tingir as roupas de vermelho. A tinta extraída da madeira era muito rara e a nobreza de Portugal passou a usar indumentárias na cor vermelha tornando-se um símbolo de nobreza. O Bendito de Mesa é a refeição feita em conjunto para que possam partilhar do mesmo alimento tanto pobres quanto ricos, como fez a Rainha Isabel.


Foliões

Alfeire: Seu Evandro

Guia: Cita os versos

Contra Guia: Faz a segunda voz

Caixeiro: Toca a caixa

Pandeiro: Toca o pandeiro

Oferta: Tira as ofertas



O Bendito de mesa é o agradecimento antes da refeição servida aos foliões.


Herança cultural guardada pelo Quilombo Mesquita


As primeiras gerações que formaram o quilombo realizavam a folia do Divino e guardam até hoje a tradição que passa de geração para geração.


Não há melhor lugar no mundo para se guardar uma tradição do que em um quilombo, pois no quilombo as pessoas vivem como antigamente. A cidade não conseguiu apagar a história e nem romper os laços com o passado. Pelo quilombo ser um local familiar, onde as tradições familiares são respeitadas, o vínculo é ainda mais forte, porque os pais ensinam os filhos e estes respeitam as tradições. Foi o que aconteceu com a família Pereira Braga do quilombo.



Essa família está na região desde a construção de Santa Luzia quando o Quilombo Mesquita foi formado durante o ciclo do ouro em Goiás. O tesoureiro da Igreja do Rosário de Santa Luzia se chamava Delfino Pereira Braga, cujo sua esposa se chamava Cândida Coutinho Pereira Braga. Suas sepulturas estão documentadas na Igreja do Rosário. Esta família acompanha as tradições católicas desde o século XVII. Quer dizer, são os primeiros moradores da região. A igreja do Rosário foi a pedra fundamental da construção de Luziânia que deu origem a toda a população local em 1677.



Quando vieram do garimpo de Santa Luzia, depois que o ouro acabou e os bandeirantes foram embora deixando os escravizados para trás. Quem levou a bandeira do divino não foram os exploradores da terra, que traziam escravos da África e pagavam impostos sobre eles, mas sim os sinceros devotos que em suas orações eram guardados da dor e da morte todos os dias. Essas famílias guardaram as tradições da fé e a identidade cultural da região e é por causa delas que a tradição permanece até os dias autuais.


Veja a galeria de fotos de Marcelo Mançano Aro.



Folia do Divino no Quilombo Mesquita em 1975 no Quilombo Mesquita.



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