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Igreja do Rosário, Berço do Quilombo Mesquita

12 de mar. de 2021
7 min de leitura

A Igreja do Rosário marcou o início do Arraial de Santa Luzia construída antes da abolição pelos escravizados que formaram o Quilombo Mesquita.


Igreja do Rosário de Luziânia, construída na época do Arraial de Santa Luzia.


Século 18, 1746. Um lugar isolado do restante do país. A mineração atraía centenas de bandeirantes que exploraram as terras guardadas pelos indígenas. O ouro brilhava às margens do Rio Vermelho e atraía garimpeiros e exploradores para a região. Em baixo de uma guerra sanguinária, nascia o Arraial de Santa Luzia. Portugueses pagavam à coroa, a porcentagem combinada pelo ouro. E africanos escravizados faziam todo o serviço. Da fé e das orações dos negros, nascia a Igreja do Rosário dos Pretos.


Igreja Nossa Senhora do Rosário em Luziânia no ano de 1957 Foto Arquivo Público


Os Bandeirantes habitaram a região e em menos de um ano já havia 10 mil habitantes. De Vila passou a Arraial, e os exploradores precisaram cultivar para sobreviver. Agricultores vieram para plantar e vender para quem vivia e para quem vinha de passagem pelas estradas na corrida do ouro. A agricultura e a mineração eram as principais formas de economia do Arraial de Santa Luzia. Tudo feito por escravizados negros, trazidos de São Paulo, e indígenas que habitavam a região antes dos bandeirantes. Anos depois, o Arraial receberia a visita da Missão Cruls.


Acampamento Santa Luzia, em Luziânia Projeto Postais Contam a História de Brasília Foto Henrique Morize - Arquivo Publico DF/Brasil


A construção da Igreja Matriz


No alto do monte que ficava à beira do garimpo, os negros levantaram um altar para adoração que posteriormente tornou-se uma capela. E ali rezavam e cultuavam aos deuses que os guiavam e protegiam. Com o passar do tempo e o crescimento da população, foi necessária a construção de um templo para que os habitantes pudessem frequentar. Começou a construção da igreja que hoje é cartão postal de Luziânia e é conhecida de todos que vivem na região. A Igreja Matriz de Santa Luzia.


Igreja Matriz de Santa Luzia.


De casa de oração a capela


A construção da Igreja Matriz de Santa Luzia havia gerado expectativas. As mãos que erguiam as paredes nem lembravam do sofrimento da escravidão, da dor nos ossos e do pouco alimento. Bastava sonhar em entregar a Deus, no santuário, algo precioso com adoração e fé. Mas, o que aqueles braços cansados não contavam, era que a maldade humana prevaleceria. O templo estava erguido, mas eles não podiam entrar.


A escravidão estava longe de ter um fim, porém havia negros livres na região. Um movimento surgiu em nome da fé e eles lutaram por seus direitos. O grupo somava 400 pessoas e, temerosos, decidiram atender o clamor dos escravizados. Eles teriam um templo, mas não aquele. No lugar onde havia surgido o Arraial, onde foi erguida a casa de oração. Em cima da colina que beirava o rio onde garimpavam, seria construída uma pequena igreja para que pudessem frequentar. Uma igreja de negros, feita por negros e para somente negros prestarem culto.


Igreja do Rosário, Arquivo Público/DF.


Um pequeno grupo transformou-se em comissão de construção e as arrecadações foram feitas para a nova igreja ser erguida. Tal comissão era formada pelo capitão Manoel da Costa Torres, pelo mestre de campo Manuel de Bastos Nerva, por José Pereira Lisboa, João Pereira Guimarães e pelo padre Jerônimo Moreira de Carvalho.


A obra da Igreja Matriz de Santa Luzia durou dois anos. De 1765 a 1767. Os escravizados não tiveram a mesma sorte. Seis anos se passaram, a pequena casa de oração já não existia mais, e o documento de permissão para construir o novo templo, vinha a galope. No dia 2 de junho de 1769, sem desistência nem recuo, começava a obra que daria forma ao maior patrimônio histórico de Luziânia, A Igreja do Rosário (dos Pretos), como era chamada.


Igreja Matriz do Rosário dos Pretos de Pirenópolis.


A Igreja do Rosário não tinha ligação com a Matriz de Luziânia, mas com a Matriz de Pirenópolis, onde se localiza a Igreja Matriz do Rosário dos Pretos. E separadamente, foi levantada a diocese em Santa Luzia. O projeto foi elaborado pelo mesmo arquiteto da Matriz de Santa Luzia, Ignácio da Costa Xavier. Com uma diferença, a igreja dos brancos era construída voltada para o nascente, que ao brilhar o sol iluminava o altar reluzindo suas esculturas. Já, a igreja dos negros era voltada para São Paulo, de onde vieram “seus donos”, bandeirantes, exploradores do garimpo.


Passados vinte e sete meses, haviam arrecadado um total de duas mil e cem oitavas de ouro. Após uma missa solene celebrada pelo padre Jerônimo Moreira de Carvalho num barracão armado provisoriamente no canteiro de obra, os esteios iniciais da construção foram estabelecidos e benzidos. Algum tempo depois, a permissão eclesiástica para sua abertura também foi concedida.


Igreja Matriz do Rosário dos Pretos de Pirenópolis.


Sepulturas dentro da Igreja


Sob o assoalho de madeira, uma história a ser contada. As sepulturas de membros da congregação que descansam debaixo do solo podem contar mais sobre aquela época que muitos livros de história. Dois casos mais importantes serão citados, porém há muito ainda para ser descoberto no subsolo da Igreja do Rosário.


Sepultura de número 9, onde foi enterrado o último homem livre condenado à morte no Brasil.


O primeiro caso, e muito curioso, foi do último homem livre condenado a morte no Brasil. Não se sabe exatamente o porquê de ter sido enterrado dentro da igreja dos negros, pois não fazia parte daquela comunidade. Este homem, condenado a forca em 30 de outubro de 1861 foi acusado te assassinar um barão para fugir com sua esposa pois, estavam apaixonados. Encontrados em Goiás Velho, foi levado ao Arraial de Santa Luzia onde foi condenado, enforcado e sepultado na pequena igreja. Alguns especulam que fazia parte do “castigo” ser enterrado ao lado de escravos. Pode ser que quisessem também, macular o lugar onde os negros adoravam. Tudo isso faz parte do preconceito da época, que enraizado no inconsciente das pessoas, passa despercebido.


O segundo caso que será citado é da sepultura mais nobre encontrada na igrejinha. Ela é diferente das outras, e se trata do sepulcro da esposa do tesoureiro. Para entender este caso, vamos voltar um pouco no tempo.


A Irmandade da Igreja do Rosário dos Pretos


Assim que os africanos chegaram no Brasil, apesar de terem suas crenças, tornaram-se devotos de Nossa Senhora do Rosário. Eles usavam sementes de uma espécie de capim com forma de gotas para fazer os rosários. As sementes eram chamadas de lágrimas de Nossa Senhora.


O episódio acontecido em Santa Luzia não foi um fato isolado, em todo o país, igrejas eram abetas para abrigar os negros devotos. A mais antiga no Brasil é a Igreja do Rosário dos Pretos de Olinda. E a mais antiga da região é a Igreja do Rosário dos Pretos de Pirenópolis. Por isso, foi fundada a confraria católica Irmandade de Nossa senhora do Rosário dos Homens Pretos. Esta confraria tinha uma estrutura na qual fazia parte o tesoureiro, um dos principais cargos administrativos da época, que possibilitavam tanto a construção como a manutenção dos templos.


Tendo compreendido isso, podemos entender porque o túmulo da esposa do tesoureiro (enterrada em 28 de abril de 1875), é o mais nobre abrigado dentro do templo. Feito todo em pedra sabão, o que historicamente significa nobreza, e localizado em baixo do altar principal, está claro que se tratava de uma pessoa com tratamento especial. Outro fato que chama a atenção é que para ser tesoureiro é preciso ter certos conhecimentos. É preciso saber ler e escrever, fazer cálculos, e além disso, ser uma pessoa de total confiança da sociedade tanto de negros, como dos brancos que confiavam suas doações naquela obra. A possibilidade de um negro ter aprendido essas coisas no Brasil é mínima. O mais provável é que tenha vindo da África com tais habilidades. Quem seria Delfino Pereira Braga em seu país de origem? Será que tratamos aqui de um rei e uma rainha? Seriam nobres africanos que escravizados exerciam papel de liderança no Arraial de Santa Luzia e dentro da Irmandade do Rosário? A história reincide em casos como este, e apesar dos negros serem desfavorecidos também na hora de ter a sua história documentada, os registros orais trazem vários casos como este, o que torna possível o acontecimento.


Família Pereira Braga


Igreja de Nossa Senhora da Abadia no Quilombo Mesquita, local onde ainda hoje é preservada a cultura das rezas de Santa Luzia.


O fato é que estas pessoas que, claramente exerceram papel fundamental na história e no contexto social de Santa Luzia, possuem o sobrenome Pereira Braga, uma das famílias mais conhecidas do Quilombo Mesquita. Delfino Pereira Braga, o tesoureiro e Cândida Coutinho Pereira Braga, sua esposa são considerados ainda hoje as personalidades mais importantes da história da Igreja do Rosário. Portanto, é possível afirmar com precisão que, a Igreja do Rosário de Luziânia é, sem sombra de dúvida, o berço do Quilombo Mesquita.


É sabido que durante a construção da Igreja, os escravos construíram túneis para conseguir chegar a quilombos da região. Mas, esta é uma história para ser constada em outra ocasião. Por hoje, este texto se encerra com o ponto inicial da busca pela identidade cultural do município de Cidade Ocidental. O que parecia ser o fim, não passa do começo de uma longa história a ser contada pela memória dos ancestrais do Arraial de Santa Luzia e a sua principal riqueza, A Igreja do Rosário dos Pretos.

Leia mais sobre os Reis do Congo no Brasil e a junção e o pepel da religião católica na perpetuação da cultura africana em solo brasileiro:

Leia sobre a Irmandade da Igreja do Rosário dos Homens Pretos:

Veja a história do Rei do Congo trazido da África para ser escravo na mineração em Minas Gerais . Acolhido pela irmandade de homens negros de Santa Ifigênia e ficou conhecido como Chico Rei.

AS IMAGENS FORAM TIRADAS DA INTERNET. AUTORES FAVOR ENTRAR EM CONTATO PARA A INFORMAÇÃO DOS CRÉDITOS.

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