Marmelada de Santa Luzia, bem precioso do Quilombo Mesquita
O marmelo não é um item exclusivo do Quilombo Mesquita. Muito menos a marmelada, doce feito do fruto, parente próximo da maçã e da pera. Ameaçada de extinção, a marmelada está cada vez mais escassa, hoje, em toda a região do Centro-Oeste só é produzida na Cidade Ocidental em poucos hectares de terra.

Os tradicionais fazedores de marmelada oferecem a prova do doce feito na hora, todos os anos na Festa do Marmelo.
Na zona rural da Cidade Ocidental há inúmeros produtores do fruto e também do doce. Há fazendeiros bem-sucedidos que industrializaram o produto e comercializam o doce que rompe fronteiras e chega às prateleiras das capitais Brasília e Goiânia, com a poupa que vem de Minas Gerais, pois, o que se cultiva no quintal das fazendas não é o suficiente para produzir o doce durante todo o ano. A safra é colhida em janeiro e logo acaba. Funcionários são contratados para dar conta do serviço e métodos modernos são usados para fazer o doce chegar cada vez mais longe o que gera um negócio lucrativo que envolve toda a família.

Seu Benedito Gonsalves, um dos maiores produtores de marmelada. Ao fundo, os pés de marmelo aguardando o próximo mês de janeiro para frutificar
Na Fazenda Pindaibal encontramos um dos maiores produtores de marmelo da região. Sr. Benedito Gonsalves. Hoje, uma das técnicas usadas no cultivo é cortar o galho do marmelo e plantar as mudas deixando-as dentro da geladeira até crescer e ganhar força. Só depois ele é levado para o lado exterior e plantado no chão onde demora cerca de 10 anos para gerar os primeiros frutos. “Na semente não nasce porque é de origem fria”, explica Seu Benedito. Ele afirma ter que comprar polpa do marmelo vinda de Marmelópolis para poder produzir a quantidade necessária para atender a demanda comercial.

Zé de Dito agradecendo pela colheita durante a missa realizada na manhã de domingo, todos os anos, na Festa do Marmelo.
Porém, para o produtor do Quilombo Mesquita o marmelo não é negócio. Os corpos já cansados não podem viver do plantio, mas em cada quintal as raízes brotam todos os anos para manter a tradicional receita dos ancestrais. O fruto colhido em janeiro não produz poupa suficiente para sustentar as famílias durante o ano, mas para eles, isso não importa, o que vale é manter a tradição da receita original e a fé comemorada todo ano na Festa do Marmelo em agradecimento a colheita a sua padroeira Nossa Senhora da Abadia.

Tacho de cobre usado no preparo da marmelada.
O rótulo leva o nome da Santa que abençoou as primeiras gerações há mais de 200 anos e o tacho, continua o mesmo, de cobre, material resistente que inspirou aqueles que nunca deixaram a tradição da marmelada morrer. O nome “Santa Luzia” era o nome da região onde se localizava Luziânia, Cidade Ocidental, e todas as fazendas que hoje se encontram na zona rural da cidade. Em dezembro de 1943 Santa Luzia passou a chamar-se Luziânia, e em 1990 a Cidade Ocidental conseguiu sua emancipação tornando-se o guardião da cultura da marmelada de Santa Luzia. Até hoje autoridades de Luziânia prestigiam as festas e participam dos eventos pois, sentem que essa cultura faz parte de sua história, hoje abrigada por Cidade Ocidental.

Prefeito de Luziânia, Cristóvão Tormim, em visita ao Quilombo Mesquita para prestigiar a comunidade. Além de visitante, ajudou na realização do evento.
O marmelo atravessou o oceano e cruzou mares para chegar até aqui. Saindo da Ásia, espalhou-se pela Europa, América e encontrou no Brasil o seu par perfeito em abundância: O açúcar! No princípio a ideia era conservar, guardado no mel, o fruto virava uma pasta doce e depois de aprimorada a marmelada virou iguaria e a receita que leva apenas água, açúcar e marmelo tomou forma nas caixas de madeira feitas artesanalmente para que o ponto fique perfeito.

A fabricação das caixas de marmelada é feita artesanalmente no Quilombo Mesquita e segue a tradição de conservação do produto.
Não há comprovação da origem do marmelo e da marmelada na região. O que se tem são relatos dos antigos e muitas histórias pautadas pela imaginação e por informações de expedições documentadas na história do Brasil, como expedição do Anhanguera e Missão Cruls, que passaram pelo Centro-Oeste e a expedição de Martin Afonso de Sousa que conta relatos de trazer a marmelada para o Brasil. Enquanto expedições viam com o marmelo, o Quilombo Mesquita já voltava com a marmelada pronta, e bem armazenada em suas caixas de madeira.

É primordial o contato do doce com a madeira para dar o ponto perfeito na iguaria. Os industrializados, em contato com o plástico perdem a textura crocante do doce.
A história de como o doce virou um patrimônio cultural da comunidade diz que a tradição vem de três escravas negras libertas, vindas de Portugal trazendo a receita que agradava tanto ao paladar lusitano. Agraciadas com milhares de hectares de terra na região, as alforriadas semearam descendentes e eles seguiram à risca os passos das matriarcas na fabricação artesanal da marmelada.

A preservação da receita e do modo de preparo é o diferencial da marmelada de Santa Luzia do Quilombo. O sabor é inigualável.
O conhecimento atravessou os séculos e hoje os descendentes das escravas alforriadas tem nas mãos o condão de manter viva a história da Marmelada de Santa Luzia. Juntos, eles mostraram que, se depender deles, a tradição vai prosseguir. Os moradores mais antigos relatam que, na década de 1970, o clima da região começou a mudar. Enquanto o clima aquecia, os ânimos da comunidade se esfriavam. Pouco a pouco, os plantadores tradicionais de marmelo foram deixando de viver do cultivo do fruto, “Os mais novos não querem trabalhar na lavoura, preferem arrumar emprego fora e nós já não temos idade pra trabalhar com a terra como era no passado. O trabalho é duro e às vezes temos problemas de saúde”. Explica Eupídea Pereira Braga, 61.

Fazer marmelada no Quilombo Mesquita significa ter identidade, manter a tradição ancestral e agradecer aos céus pelo alimento que brota do chão. Significa agraciar o trabalhador rural pelo seu esforço na lida do campo e festejar com eles e elas, as trabalhadoras, todo seu empenho e dedicação para manter viva a chama do trabalho, da família e da esperança por dias melhores.

João Nonato, produtor de marmelada conta como aprendeu a fazer a sobremesa que segundo ele agradou e serviu à mesa do imperador Dom Pedro II e de Juscelino Kubitschek. “A minha vó ‘Nonata’, Maria Leornarda, ensinou meu pai a fazer, que é o Benetido Antônio, conhecido como Dito Nonato, e meu pai passou pra mim”, conta João de Dito.

Ele conta como JK conheceu o doce no Mesquita. “Aquele monte de candango trabalhando e Juscelino com aquele chapéu de carpinteiro no meio dos piões, meu pai pegou a caixa cortou a marmelada e deu pra ele comer. Lembro disso como se fosse hoje, eu era pequeno, tinha uns 8 anos de idade. E Juscelino comeu a marmelada junto com os piões ali”, lembra emocionado.

Mauro Melo já passa dos 80 e também faz marmelada desde criança e conta com orgulho. “A marmelada é famosa, todo mundo gosta desse doce. Esse doce aqui vai pra muito longe, o povo vem comprar de longe”. São mais de duzentos anos de histórias que não podem ser contadas aqui em poucas linhas. Mas, não saia sem assistir ao vídeo que mostra a realidade dessa história com imagens impactantes sobre a trajetória do Quilombo Mesquita e da Marmelada de Santa Luzia.






















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