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Nossa Senhora da Abadia, a Padroeira do Quilombo Mesquita

12 de mar. de 2021
9 min de leitura

A Festa da Padroeira é a maior do Quilombo Mesquita. São 14 dias de comemorações que incluem a novena, a folia, missas, solenidade, procissão, cavalgada, almoço e leilão.


Apesar da Festa pública ter 70 anos, a devoção e as rezas são ainda mais antigas e foram passadas de geração em geração. O costume com as novenas era tão forte que a padroeira foi escolhida especialmente para homenagear os costumes antigos do quilombo. A festa se iniciou quando um fazendeiro chamado Bendito Lambarí deu suporte à comunidade para manifestar publicamente sua devoção vinda de séculos. e compartilhar com outras comunidades, os festejos nos pousos de folia. Lambari também era devoto e havia feito uma promessa à santa quando acometido por um acidente que quase o cegou. A junção da fé e tradição do Quilombo Mesquita com a estrutura e compromisso do fazendeiro gerou o que hoje se conhece por Festa de Nossa Senhora da Abadia.


Na foto: A filha de Bendito Lambari, Maria Barbara, continua a tradição do pai.


É importante frisar que todas as tradições que hoje são numeradas e datadas não expressam o verdadeiro início da tradição. Mas, contam a partir do momento em que a tradição deu origem a uma festividade pública com visitação de pessoas de fora. Antes disso, a devoção à Santa já acontecia com fervor e comprometimento nas casas e na antiga igrejinha da comunidade de Mesquita. Com o passar dos anos e divulgação dos eventos, a comunidade cresceu e passou a receber muitos turistas e foi preciso construir um templo maior para receber os visitantes. As novas famílias que se formaram no povoado descendentes das ancestrais que herdaram a terra, também fizeram a comunidade mais numerosa. Muitos se casaram entre si, outros com pessoas de fora e alguns moradores que chegaram e se juntaram a comunidade também deram corpo e crescimento nas tradições do Quilombo Mesquita. A comunidade reconhece o trabalho de Bendito Lambari, hoje muito bem representado em todas as tradições por sua filha e devota Maria Barbara, 66.





A história da criação da Festa por Bendito Lambarí é verdadeira e reconhecida pela comunidade, só não está completa. É importante que seja dito que a comunidade já era devota da Santa desde os primeiros habitantes e que trouxeram a fé ainda da Igreja do Rosário nos garimpos de Santa Luzia. Essa fé passou de geração em geração, deu nome ao templo, deu significado a vidas, deu textura à festividade de quem tinha mais estrutura para comemorar e oferecer o melhor para a santa protetora e padroeira do Quilombo Mesquita. A criação da festa também teve participação da comunidade.

Lambarí não começou essa história sozinho. Em conversa com o folião Jaíres Pereira Dutra, 42, ele afirma que seu pai criou a Festa junto com Lambarí. “Meu pai, Sebastião Pereira Dutra andava junto com Lambarí e eles criaram a festa juntos”, conta. “Desde menino que eu giro a folia lá no Garapa”. Questionado sobre o parentesco com Maria Dutra da fazenda Garapa, ele afirma: “É minha prima”, explica. Ele também cita suas ancestrais Belízia Pereira Braga e Floricena Pereira Braga. E afirma que o “procurador” era Alceu Teixeira Magalhães. Ele conta também que Sebastião Pereira Braga já realizava outras Folias como a do Divino.



Esses registros orais, dos modos e saberes, das vivências dos que cresceram ouvindo as histórias de seus pais e avós são provas históricas das origens culturais dos africanos no Brasil. Que por motivos de força maior tiveram que esquecer suas culturas ancestrais, mas que, por outro lado abraçaram a cultura que conheceram advinda da Europa e criaram uma cultura brasileira, miscigenada. E com muito compromisso e responsabilidade levaram de geração em geração, ensinando seus filhos e netos e respeitar as tradições católicas construindo assim a cultura e história do Entorno e trazendo até os dias de hoje, os resquícios da história do Brasil Colonial.





A fé que gerou a folia de Nossa Senhora


Uma mãe devota e desesperada por ver seu filho bem de saúde. Uma criança que cresceu com o compromisso de agradecer e cumprir a promessa feita por sua mãe.



Em 1954, uma criança adoeceu. Acometida de um problema no sistema imunológico. Cresceu em uma de suas pernas uma íngua insistente e muito grande. Se houvesse assistência médica talvez o jovem rapaz seria encaminhado a um pronto socorro. Mas o isolamento, a invisibilidade que paira sobre a comunidade leva muitas mães a entregarem seus filhos nas mãos de Nossa Senhora da Abadia. Foi o que fez dona Amélia Pereira Braga e prometeu que o garoto faria as Folias de Nossa Senhora da Abadia. O menino cresceu, e agradecido cumpriu a promessa feita por sua mãe. Aos 79 anos, Seu Evandro já realizou mais de 5 mil folias na região.



Paulina e Aleixo Pereira Braga, avós de Seu Evandro, alfeire da folia. A fé foi herdada da avó.

A trajetória de Seu Evandro até chegar ao principal alfeire, folião e guardião da cultura dos antigos passa por várias etapas. Quando criança via sua mãe rezar a novena na casa em que foi criada por seus pais Paulina e Aleixo Pereira Braga. A sua mãe Era Amélia Pereira Braga e seu pai Calixto de Souza e Silva. Seu Evandro herdou o sobrenome do pai, mas diz com orgulho que gosta de ser Chamado de Evandro Pereira Braga. Crescido no meio das rezas, ele aprendeu desde cedo a ser devoto da mesma santa que já protegia seus avós, pais e todo o povoado. A tradição da devoção a santa se iniciou na comunidade muito antes da construção de Brasília, quando a Festa foi criada e já havia moradores novos na região.


Casa de Aleixo e Paulino onde se faziam as novenas que inspiraram seu Evandro.

Depois da graça recebida, o menino cresceu e participando das folias realizadas na comunidade. Sempre devoto e agradecido acompanhou o surgimento das festas tradicionais abertas ao público. Mas, o comprometimento em levar a promessa da mãe adiante fez com que aquele garoto com uma íngua na perna se tornasse o principal motivo da existência da tradição no município. Seu Evandro está a frente de quase todas as folias realizadas durante o ano. Apesar da idade avançada, ele continua, pois não encontrou sucessor. “Parei um pouco, mas o coração doeu então voltei”, explica.



O Seu Evandro também já fez folias em outros lugares como convidado. “Se eu for contar quantas folias eu fiz dá mais de 5 mil e se for contar as bençãos recebidas é como as estralas no céu”, conta com um sorriso no rosto e um olhar alegre de quem cumpriu bem a sua missão. Ele tira folias do Divino, de São Sebastião, Aparecida, mas a Folia de Nossa Senhora da Abadia é especial. Em sua casa, no São Matheus, tem uma capela e um cruzeiro feitos especialmente em devoção a santa. E todos os anos a folia começa e termina em sua residência.


Seu Evandro com 79 anos, na capela construída em sua casa, para realizar a folia de Nossa Senhora da Abadia.

Talvez pareça que uma tradição que ocorre no São Matheus não faz parte do Quilombo Mesquita. Mas, a verdade é que todo esse território pertencia a família Pereira Braga. O Sr. Aleixo Pereira Braga vendeu parte das terras para a construção do Friburgo, mas a algumas famílias quilombolas ainda moram na região. Seu Severo da rabeca, filho de Aleixo, sempre morou no Friburgo e sua casa ainda lá com seus familiares.



Seu Evandro, 80 anos de fé


Na casa do Evandro foi construída uma capela e um cruzeiro especialmente para a Folia de Nossa Senhora da Abadia. O cruzeiro foi feito em homenagem a sua mãe.


A alvorada acontece sempre na mesma época do ano, no início do mês de agosto. Para Seu Evandro e família é o momento mais esperado. Os preparatórios, a correria e colaboração de todos os devotos para que tudo aconteça segundo a fé do coração de cada um. São pedidos e agradecimentos. Cavaleiros, foliões, cozinheiras, cada um dá o seu melhor para oferecer. Em um lugar afastado, de difícil acesso, se esconde um tesouro. Um lugar onde a cultura goiana é preservada com zelo e muita dedicação. Esse lugar é a casa de Seu Evandro Pereira Braga, onde ele alvora e desalvora a folia todos os anos.



“A capela foi construída no tempo do professor Manoel”, conta seu Evandro. “Ele deu a ideia e nós gostamos e começamos a construir.” A folia do Seu Evandro movimenta o turismo na região. São turistas de várias partes do Brasil. “No Rio de Janeiro tem gente que sabe a data dessa folia. Eles ficam aguardando o dia chegar’, explica. Entre os presentes, moradores de Luziânia, Valparaíso, Céu Azul. Apenas com a reputação de Seu Evandro, os convidados comparecem para as rezas, os cânticos e o jantar oferecido gratuitamente. Este pouso foi dado por Jean Cícero, 30, morador de Valparaíso de Goiás. “Ela me concedeu uma benção e eu prometi que enquanto eu tivesse vida e saúde eu daria o pouso. Tem cinco anos que eu faço isso”, conta.



O cruzeiro não é improvisado. Foi plantado e tem raízes profundas, assim como as tradições familiares. “Meu tio, Severo, plantou esse cruzeiro em nome da minha vó. Ela e minha mãe rezavam todo dia 15 de agosto sem falta”, conta Evandro. A avó Paulina, foi citada acima com a tradição das rezas no casarão. E na casa de Evandro sua fé se eternizou no cruzeiro plantado em sua homenagem.



A comida é a hora mais gostosa da festa. Ela representa a comunhão, união e harmonia daqueles que compartilham da mesma fé. O trabalho na cozinha começa cedo. As cozinheiras se reúnem para começar a descascar e fazer os preparativos. O trabalho é sempre impecável e na hora certa a refeição sempre está pronta e no ponto! Tudo perfeito e feito com muito amor. Ana Maria, Luzia, Marlene, Silvana, Divina, Luciana, Janaína. Quantas mãos seguram essa tradição? Com trabalho, esforço, dedicação. “É um cansaço que você nem sente. É muito gostoso. Nós nos reunirmos aqui já é uma tradição”, conta a professora que deixa a os livros para exercer uma função primordial na manutenção da cultura popular. Afinal, o que seria dos pousos sem o Bendito de mesa? Os alimentos são arrecadados e doados pela comunidade. “A comida já foi escassa. Hoje temos com fartura”, lembra Seu Evandro.


Elas deixam suas casas e suas profissões para servir a Santa com sua mão de obra e muito tempero para alimentar os foliões.




Os 70 anos da Festa de Nossa Senhora


A fé em Nossa Senhora da Abadia é muito antiga, mas a Festa está comemorando 70 anos


Maria Barbara, 66, é filha de Benedito Camelo de Mendonça, conhecido como Bendito Lambarí. Foi em sua casa que nasceu a Festa de Nossa Senhora da Abadia. Ela relata o acidente que seu pai sofreu e como conseguiu a cura que deu origem a tradição da folia. “Meu pai foi caçar uma pomba e a pólvora voltou no olho dele. Foi pra voltar a enxergar que ele tirou a folia. Eu tinha 4 anos quando isso aconteceu”, explica.



Maria era apenas uma criança quando isso aconteceu, mas ela se lembra como se fosse hoje. “Depois de três anos ele (Lambarí) foi trabalhar na usina e não conseguia folga, então cedeu. Deram continuidade Sebastião Pereira Dutra, Jacinto Lisboa da Costa e Sinfrônio Lisboa da Costa. Seu Evandro deu continuidade nesse festejo e hoje com 80 anos ele ainda encontra forças para não deixar a tradição desaparecer.



Mesmo na ausência do pai, ela continua a tradição ajudando nos pousos e cedendo sua casa para receber a folia sempre pode. “É Deus que nos dá a provisão para oferecermos o pouso. Quando fazemos algo para Deus nós temos vitória”, diz. A folia continua com todas as dificuldades vencidas uma a uma.



Sem apoio dos governos. Feita pela comunidade. Sem reconhecimento patrimonial. Regada com o suor de uma gente simples, batalhadora. Gente de fé. Gente que acredita e que dá o seu melhor. Gente.



As disputas pela apropriação cultural sempre existirão da parte dos gananciosos, mas entre a população a união sempre falou mais alto. Por esse motivo, e somente por esse motivo é que as tradições permanecem. O que separa bancos e negros é do tamanho do oceano. Porém, muito maior que o oceano, são os céus. E esse fator faz com que todas as diferenças se dissipem trazendo as coisas que realmente importam.



Poucas festas chegam na 70ª edição. A Folia de Nossa Senhora da Abadia do Quilombo Mesquita é uma delas. A valorização desse patrimônio é urgente. Mas ao contrário do investimento o que acontece é o escoramento. Depois de tudo pronto sempre aparece o poder público para se apropriar porque não conseguiu destruir. A nova geração está de pé segurando a bandeira e passará adiante. Enquanto isso, talvez alguns ousem sonhar que um dia, quem sabe, haverá escolas de foliões com aulas de rabeca, viola, companhias de catira. Incentivo público para ornamentação, estruturas. Um projeto de divulgação que reconheça o trabalho da comunidade que faz acontecer e oferece, na maioria das vezes, muito mais do que tem pra si.



A Festa de Nossa Senhora da Abadia é puramente uma festa popular. Que nasceu dos modos e saberes, que passa de geração a geração por ensinamentos práticos e pela oralidade. A própria Igreja Católica se deslumbra com a fé guardada pelo Quilombo Mesquita. Os próprios párocos afirmam que desconhecem uma fé como essa que guarda em cada gesto um significado mais que especial. O trabalho dessas pessoas precisa, com urgência ser reconhecido e preservado. Mas, principalmente, respeitado.



Procissão


A procissão é momento muito bonito da festa. Onde os fiéis caminham da Paróquia Santo Antônio até a Capela de Nossa Senhora da Abadia para entregar a imagem da santa padroeira. As mulheres vão a cavalo guardando a santa protetora do povo. Devotos caminham até o Quilombo Mesquita onde fazem a desalvorada com fogueira e cantoria. A tradição ainda é a maior festa da comunidade.




Homenagem a Juca


No dia 15 de agosto também aconteceu a despedida de Seu Juca da Fazenda Garapa. De família tradicional e de muitos amigos, ele recebeu a homenagem da procissão que passava e parou para rezar em sua homenagem.



Texto: Jack Lima

Fotos: Marcelo Mançano Aro


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