Novena de São Sebastião, tradição que une gerações
Segundo relatos dos moradores mais antigos, a Novena completa 178 anos em 2019 na Fazenda Garapa, em Cidade Ocidental

Em 1928, quando nasceu Maria das Neves Meireles, a Novena de São Sebastião já era um costume na Fazenda Garapa. A menina que desde cedo, acompanhava os pais durante os nove dias em que se faziam preces ao protetor dos doentes, conta, aos 84 anos, as memórias da Novena de São Sebastião para que a tradição da família possa chegar às outras gerações e fazer reviver a história do município de Cidade Ocidental.

Conhecida como Tia Maria, a mãe de Liosório Meireles, mora hoje em Luziânia e afirma que foi criada na fazenda Garapa dentro da tradição das novenas e pousos de folia. Filha de Osório Alves Meireles e Maria da Abadia Batista, ela mantém viva na memória uma história de fé e devoção que constitui a cultura e o dia a dia de um povo que leva consigo os ensinamentos dos pais há mais de quatro gerações. “Quando eu nasci, já tinha essa novena aqui na Fazenda Garapa”, relata mostrando fotografias antigas dos festejos de São Sebastião.

Dona do casarão que aparece nas fotografias tiradas durante as novenas em tempos antigos, ela não tem nenhuma dificuldade em lembrar da história do avô Antônio Alves Meireles, filho de um português com o mesmo nome e mais conhecido como Gordo, que veio de Luziânia para construir a casa no Garapa, na época ainda chamada de Fazenda Sant’ana. “Nós vivíamos todos juntos aqui, o que um produzia dividia com o outro. Se matasse um porco, cada família ficava com um pedaço. Era assim que nós vivíamos” relata. Ela conta que as famílias se casavam entre si e que produziam várias iguarias na fazenda, inclusive a marmelada de Santa Luzia.

Muito ligada à cultura familiar, tia Maria diz que os moradores da Garapa aprenderam as rezas com os negros que haviam sido livres no fim da escravatura. Ela afirma que eles eram amigos da família e cantavam as novenas em latim. Apesar da idade ela ainda lembra de dois nomes dos rezadores, João Corrêa e Miguel Dutra. A história da família foi consolidada dentro desse costume que passou por cinco gerações e vive até os dias de hoje.

Filha de Osório Alves Meireles e Maria da Abadia Batista, ela explica como as famílias se unificaram e permanecem juntas até hoje. “Aqui ninguém pode falar de ninguém, porque somos todos parentes” conta soltando uma simpática risada. Ainda nesta geração mais um casamento consolida a união das famílias Meireles e Batista aliançando Nicando Batista e Lígia Alves Meireles que tiveram José Evani Batista que se casou com Maria Dutra e consolidou não só a união de duas famílias, mas de duas culturas que se difundiram em uma só. Esta união deu origem a três filhos Augusto, Aline e ao, (à época), prefeito municipal Alex Batista que com devoção segue a tradição familiar participando das novenas todos os anos e lutando pela preservação da cultura da Fazenda Garapa.

Maria Dutra, mãe de Alex Batista. Dona da casa onde a novena é realizada há quase dois séculos.
Maria Dutra Batista: Firmeza, fé e alegria.
Às 18h do quinto dia da Novena de São Sebastião, sentada a beira da casa construída na Fazenda Garapa em 1880, Maria Dutra Batista fazia o ritual que daria sequência a uma história de cinco gerações. Mãe de Aline, Alex e Augusto e esposa de José Evani Batista, a catequista segurava o rosário com devoção enquanto lembrava como aprendeu com a tia todas as rezas que já eram feitas por seus avós, ali naquela casa, antes mesmo da abolição da escravatura no Brasil. “Minha tia me levava pra rezar a novena desde pequenininha. Ela nunca perdia uma novena. Era muito devota. E nós aprendemos com ela, as rezas e a manter a tradição da novena.” Lembra Dona Maria.

Maria Dutra mostrando a data de construção da casa no umbral da porta.
Ela conta que oferece a novena todos os anos e que sente saudade da época em que aprendeu a tradição. “Naquele tempo as novenas eram feitas nas casas, depois foi construída a igrejinha lá em cima, e agora, de uns quinze anos pra cá, nós construímos a capela com o dinheiro que arrecadamos através de leilão e doações”. A noveneira também confessou que sente prazer em ceder a casa para os festejos que acontecem todos os anos. “Eu gosto de oferecer a minha casa, não só para a novena, mas também para os pousos que acontecem aqui. Acho que se nós queremos as bênçãos para a nossa casa, nós devemos abrir a nossa casa pra que elas entrem”, explica.

Ela afirma que a maior prova da tradição da novena é a própria existência da festa que correu os séculos e chegou aos dias de hoje passando por cinco gerações. A devoção de Dona Maria faz com que o costume permaneça no local. E a força, firmeza, fé e alegria, unidas a vontade de servir fizeram dela uma pilar nessa família que acabou por se tornar prefeito. (Referindo-se a Alex Batista).

A devoção e fidelidade dos noveneiros
Cerca de cem pessoas passam por ali todos os dias para fazer suas orações ao santo que protege contra a violência e as doenças. A fé dos noveneiros os move a voltarem todos os anos ao local para fazer pedidos e agradecimentos pelas dádivas concedidas. A novena cantada ao padroeiro do Rio de Janeiro traz esperança aos fiéis que, por motivos diferentes, não deixam de comparecer a festa. “Minha irmã adoeceu e fez a promessa de fazer a novena, mas ela faleceu antes de poder cumprir. Então minha mãe e eu estamos aqui pra cumprir o desejo de minha irmã. Já fizemos no ano passado e este ano estamos aqui pra continuar a tradição”, relata José Antônio Batista, 39 anos, morador e administrador do Mesquita. O caso de José Antônio se repete na vida de cada um de forma íntima e particular e é por isso que a novena guarda em seus braços histórias de centenas ou até milhares de pessoas que levam até o altar de São Sebastião as suas alegrias e tristezas todo mês de janeiro há mais de um século.

História da Garapa
Os moradores mais antigos da Garapa contam que o nome foi dado ao local quando um carro de boi que passava com a produção de açúcar, melado e rapadura que abastecia a cidade de Luziânia tombou na beira de um riacho que passava por ali deixando a água adocicada. Daí surgiu o nome Garapa. Os primeiros moradores de Luziânia eram abastecidos com a produção que saía da Fazenda. Tia Maria conta que moradores de Luziânia se expandiram para esta região para viver uma vida de produção rural. “Eles souberam que tinha muita terra por aqui e começaram a ir morar naquela região”, lembra.

Carro de boi que era utilizado para carregar açúcar até Luziânia.

A igrejinha colonial construída na época, hoje fica dentro do condomínio AlphaVille e será preservada pelos engenheiros da obra.

A igreja que fica na Fazenda Garapa onde é realizada a missa de São Sebastião.
Comunhão no partir do pão e nas ofertas
Depois de cada período de oração, os noveneiros se reúnem no galpão construído por eles mesmos, atrás da capelinha para comer, dançar e festejar. O leilão que acontece através de doações de prendas é gritado pelo por Alex Batista e tem como objetivo arrecadar fundos para manter viva a tradição. “A festa não tem o apoio da prefeitura porque ela ainda não foi reconhecida, então nós que seguimos a tradição é que temos que arcar com todas as despesas” explica. Muitos moradores daquela região têm o receio de que as tradições venham a se extinguir por conta da falta de apoio à cultura regional. O administrador do Mesquita, José Antônio, afirmou que este ano não haverá a Folia de São Sebastião por falta de festeiros que possam oferecer suas casas. “Fica muito caro oferecer o pouso, as despesas com a comida e a música ficam por conta dos donos da casa, e nem sempre a comunidade tem condições de arcar com isso”, relata.
























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