Sem acesso! Moradores sofrem com a rotina dos ônibus no Entorno
Ao longe, o ronco dos motores. Nas filas, olhares cansados. Adiante, uma longa jornada até a porta de casa

Foto: Claudio Reis
A vida de quem mora no entorno e trabalha em Brasília se resume a uma palavra: estresse. A rotina maçante dos ônibus tem tirado o gosto de viver dos moradores que dependem do transporte público. São quatro horas por dia só de deslocamento de casa para o trabalho e do trabalho para casa.
A primeira etapa começa ainda a noite. Antes do sol raiar já se ouve o ronco dos motores que passam nas avenidas principais coletando passageiros que precisam chegar ao seu destino. Enquanto isso, pessoas saem de suas casas no escuro e caminham até as paradas de ônibus. Uns com mais sorte e outros nem tanto. Os assaltos crescem a cada ano e tem ficado cada vez mais perigoso andar pela cidade até a parada.
Para as mulheres o risco é ainda maior. Com medo, elas caminham rápido e assustadas. Algumas conseguem companhia, mas na lei da hora marcada é cada um por si para conseguir pegar o serviço no horário certo. Quem perde o ônibus acaba ficando em maus lençóis, pois as opções são escassas.
Na parada segue a rotina. Frio, sono, e olhar atento para não perder o ônibus. É preciso ler o itinerário a distância para dar o sinal. E assim que o ônibus para começa a humilhação. Quando param perto deram sorte. Mas, quando param longe é preciso correr para subir no baú, como é chamado. E antes mesmo que a porta se feche, o motorista já arranca e quem puder que se segure. A empresa não respeita a quantidade de passageiros para lucrar cada vez mais e carrega as pessoas como se fossem gado, espremidas, sem o mínimo de segurança. Eles sempre acham que cabe mais um. Fora a quantidade de paradas na estrada. Tudo isso para evitar de colocar novos ônibus. O que importa para eles é o lucro.
Às vezes a superlotação é tão intensa que não há nem lugar para segurar. Nos dias mais difíceis, não há lugar nem para colocar o pé. A regra do ônibus é não tirar o pé do lugar pois, outro ocupará rapidamente e a vítima ficará literalmente, sem chão. Para evitar de chegar por último e passar por isso, os trabalhadores e estudante andam distâncias cada vez maiores para pegar nas paradas mais próximas à garagem. Os moradores de bairro que o digam. É preciso sair do seu bairro até o centro onde passam os transportes e aí sim conseguir embarcar. Na volta, a mesma coisa. São quilômetros diários de caminhadas em meio ao cansaço, medo e estresse.
O empregador sabendo disso já observa o currículo para ver se o pretendente a vaga de emprego não morar nessas localidades. Quem morar longe vai para o fim da fila, pois, além do empregador ter que arcar com passagens caras, ainda tem o receito de ocorrer atrasos no horário por falta de linhas de ônibus. A dificuldade para arrumar emprego piora a cada dia. Assim a vida do morador do Entorno perde a qualidade a cada dia que passa. E na janela ficam as horas de lazer, tempo com a família, dedicação ao esporte ou a atividade física e o risco de assalto e descaso das empresas com os passageiros só agrava a situação.
Se houvesse interesse da parte dos governos para solucionar a situação dos usuários de transporte público, eles trabalhariam na área de mobilidade pública e geração de empregos locais. Ampliação da BR para evitar os engarrafamentos e fariam licitação para ampliar a concorrência nas empresas de ônibus. Enquanto isso não acontece, nos resta falar. O silêncio nessas horas pode ser a pior das escolhas.
Um dia de cada vez
01/08/2005 - Jack Lima
Lá vai Joana com seus livros raros
Ela quer subir na vida e ser “alguém”
Passar no vestibular não foi tão fácil
Sua escola não ensinava muito bem
Concorreu com o moço de descansa
Faz ALUB, faz esporte e come bem
Lá vai Joana de navio negreiro
Todo dia nesse mesmo vai e vem
Lá vai Patrícia, consumista nata
Navio negreiro pra ela também
Choque de mundos: rodoviária Shopping Center
Realidade não lhe cabe muito bem
O tripulante tem direito a sonhador
E daqui lá vai sonhando que é burguês
Tomou um susto com a freada no sinal
Lembrou das contas pra pagar no fim do mês
Lá vem menino trabalhando desde cedo
E desde cedo aprendeu a ganhar pão
Mas de com força venho segurando o remo
E mão no bolso não coloco agora não
Lá vem o moço precisando de atenção:
“Cabou remédio na farmácia do hospital!
Ou cêis me ajudam a viver nesse mundão,
Ou caio duro bem aqui passando mal”
José acorda antes que o galo cante
E vai ganhar a vida na cidade grande
E com bravura vai remando o tripulante
Navio negreiro até chegar no Bandeirante
Lá vai a vida passando pela janela
E o Seu Zé já tá pegando a lotação
Amanhã começa tudo outra vez
Navio negreiro até a civilização.
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